Os ponteiros do relógio ainda não tinham alcançado as sete horas da manhã e o estômago já havia sido preenchido com leite quente com achocolatado e um pão francês com manteiga; meia dúzia de biscoitos já estavam na mochila para serem partilhados no intervalo da escola; arroz, feijão, uma “mistura”, variados vegetais e sempre uma boa jarra de suco compunha o almoço.
À tarde, vitaminas, pipoca, bolo, pão caseiro; de noite, tinha o almoço de novo ou uma sopa ou sanduíche ou qualquer outra coisa inventada. Antes de dormir, mais leite com achocolatado.
Assim, construímos nossa identidade alimentar, há vinte, trinta anos. Ainda que simples, muita saúde havia alí. Saúde mental, principalmente. Isso porque não houve um dia sequer que comíamos preocupados com o nutriente, a composição, a quantidade e tantas outras questões como vemos nos dias de hoje.
A revolução na indústria de alimentos transformou o mercado e, com isso, as pessoas. A gourmetização da alimentação impactou tanto o padrão alimentar das pessoas a ponto de um ato tão simples ter se tornado algo tão complexo.
Come-se para prolongar a juventude. Come-se para equilibrar a flora. Come-se para melhorar a pele. Come-se para acelerar o metabolismo. Come-se para tantas coisas. Mas, quando come-se para ser feliz?
O equilíbrio alimentar se transformou, aos poucos, em sofrimento. A partir disso, a satisfação e a culpa começaram a andar lado a lado, transformando os prazerosos momentos de alimentação - sim, comer é prazer – em algo vigiado, cheio de regras e punições.
A plenitude da alimentação está muito mais próxima do simples do que da gourmetização da alimentação. Não há cápsulas ou suplementos mais poderosos do que o afeto com o alimento construído ao longo da nossa história.
Cultivar suas escolhas alimentares. Preparar o seu alimento. Partilhá-lo com pessoas especiais. Isso é mais do que suficiente para você se encontrar com você mesmo. O equilíbrio alimentar é regado a afeto. A gourmetização da alimentação não nos torna mais saudáveis. Ela apenas nos arremessa – à sua velocidade – no outro extremo que também nos desequilibra, pois nos faz escravos das nossas próprias escolhas.