No estacionamento de uma padaria tem uma placa na qual está escrito: “ética é fazer o certo mesmo que ninguém esteja vendo”. Esse apelo pela honestidade das pessoas chama a minha atenção sempre que vou lá. Da última vez, lembrei de uma lição de filosofia.
No livro A República, Platão apresenta um diálogo entre Sócrates e Gláucon sobre a justiça, ocasião em que este conta o mito do anel de Giges.
Giges era um pastor que trabalhava para o rei da Lídia. Um dia, enquanto ele cuidava do seu rebanho, houve uma grande tempestade e um tremor que abriram uma fenda na terra. Curioso, ele desceu pelo buraco e encontrou uma espécie de caixão em formato de cavalo. Viu então um cadáver nu e grande que usava apenas um anel de ouro, o qual surrupiou para si. Durante a reunião para falar sobre as condições do rebanho ao rei, ele por acaso mexeu no engaste (pedra preciosa) e se tornou invisível. Consciente deste poder, ele logo foi seduzir a mulher do rei e, com a ajuda dela, matou-o e tornou-se o soberano.
Para Gláucon, as pessoas são egoístas e ambiciosas (bestas imundas!), e suas ações são praticadas de acordo com o que se chama de “justo” contra a própria vontade. Ele argumenta que, se a justiça estivesse dentro de cada indivíduo, todos agiriam da mesma forma. As boas ações só são feitas por medo de que algum mal (uma punição) seja causado ou pelas recompensas que se pode ganhar, ou seja, não pelo valor que a justiça tem, mas por interesses pessoais.
Ele fala ainda que a justiça é difícil e trabalhosa e um suposto homem justo não adquire as vantagens que o injusto tem e ainda corre o risco de ser visto como injusto, já que os outros podem duvidar da sua honestidade. A vida seria boa apenas para o homem injusto, que constrói a fama de justiça (sua imagem), enquanto, em seu íntimo, apenas é egoísta e interesseiro e, desta forma, consegue todas as vantagens possíveis. Em outras palavras, a melhor situação possível para uma pessoa é cometer um injusto sem ser punido por isso. No caso do mito, Giges se torna rei.
Adimanto, irmão de Gláucon, se junta à conversa e levanta ainda a questão do julgamento das pessoas perante os deuses, concluindo que a aparência de honestidade pode enganar inclusive essas divindades. Relembro aqui de forma rápida que os deuses gregos são falíveis e imperfeitos, ao contrário do Deus cristão.
Os irmãos, desesperados, pedem a Sócrates que lhes prove que a justiça pode ser boa por si e não pela ameaça dos homens e dos deuses. Ele tem uma resposta, mas isto fica para um outro dia.
Depois de tudo isso, eu te pergunto: o que você faria se fosse invisível? Se suas ações escapassem do olhar das outras pessoas e das autoridades? A pessoa que sempre está tentando esconder algo, ela é confiável? Bilbo e Frodo usam o Um Anel para o bem ou para o mal? A placa da padaria, no final das contas, é útil?
A resposta da última pergunta para Gláucon é negativa.
