Opinião

Como chegar lá?

"Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua”, aconselha Guimarães Rosa (1908-1967), um dos maiores escritores brasileiros.

Francisco Estefogo
17/10/22 às 18h00

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”, reflete Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), um dos mais influentes poetas brasileiros do século XX. Nesse esteio temporal, a considerar a contingência situacional da atualidade, Heiddeger (1889-1976), filósofo alemão, concebe o ser humano a partir da sua relação com e no mundo, o que implica uma vertente existencialista.

Em outras palavras, grosso modo, o que somos hoje é uma compilação dos resultados das nossas ações passadas. À vista disso, podemos ser compreendidos, a rigor, com base nos nossos feitos no decurso do nosso viver.  De acordo com o pensamento heiddegeriano, de forma geral, essa dinâmica floresce e é construída na vida em curso, certamente, com consequências no futuro.

Contudo, não estamos absolutamente amarrados à hodiernidade, mas abertos para inovar, construir e transformar. O tempo presente pode ser, destarte, a gênese de sonhos e projetos. Labutar para concretizá-los é um ato de resistência contra a perenização das fragilidades e vulnerabilidades humanas.  Refere-se a uma maneira de assegurar a autoestima, dentre outros dividendos, por meio da convergência entre mente e corpo.

Em que pese a sorumbática e desafiadora contemporaneidade, apinhada em conturbadas sístoles e diástoles, além de estar ofuscada pela homogeneização das diferentes formas de ser e agir no mundo, pelo tosco negacionismo aos avanços científicos, bem como pela polarização política-ideológica, por mais desafiador e abúlico que pareça, é possível desenhar um horizonte mais acolhedor e oxigenado, sobretudo, calcado na colaboração e na diversidade inerente ao outro.

Nesse terreno, Catherine Walsh, professora e diretora da Universidade Andina Simón Bolívar, Equador, propõe a construção de gretas “onde moram, brotam e crescem modos-outros, as pequenas esperanças”. Dito de outra forma, trata-se da prospecção de inéditas possibilidades que rompem com a inércia da situação corrente, muitas vezes objetificadora, de modo que novas perspectivas de vida possam ser elucubradas. Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro, corrobora os processos de transformação, apesar das nossas existentes agruras, ao apontar a centralidade da “consciência de ser o que se é e escolher ir além da experiência da sobrevivência”.

Apreende-se, desse modo, que, à luz das concepções filosóficas supracitadas, as nossas escolhas deveriam estar alinhadas à condição de estarmos conscientes do que somos, ao que queremos e, certamente, aos plausíveis desfechos de nossas atividades. Concernente à circunstância atual, é preciso exumar os fantasmas e fracassos, assim como refletir sobre as ferramentas disponíveis, o contexto e as prováveis decorrências do nosso fazer, se quisermos mudar a nosso entorno, sem ser incautos e insidiosos.

Num momento sócio-histórico-cultural marcado pela abissal desigualdade social e violência aos grupos minoritários, pelo asfixiamento da liberdade de imprensa, pela tendência perversa à irracionalidade humana, que teima em resistir as robustas provas do conhecimento, dentre outras anacrônicas atrocidades, mesmo no começo do já avançado e ímprobo século XXI, aspirar um futuro promissor é um sopro de inefável esperança. Essa octanagem e refrigério alvissareiro anabolizam o nosso conatus, impulso humano de autopreservação, como afirma Espinosa (1632-1677), filósofo holandês. Envidar-se para chegar lá é uma das maneiras de prosseguir na existência humana, resistindo e expandindo as balizas conservadoras e dogmáticas, mas não apenas sobrevivendo, como acima ressaltou Krenak.

“Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas que sempre passa. E você ainda pode ter um muito pedaço bom de alegria. Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua”, aconselha Guimarães Rosa (1908-1967), um dos maiores escritores brasileiros dos últimos tempos. Indubitavelmente, cada um de nós pode ser regalado com esse momento de júbilo e, de alguma forma, catártico. Decerto, depende da nossa vontade, dedicação, disciplina e foco. Nesse sentido, Kant (1724-1804), um dos principais filósofos da era moderna, açula e avaliza o espírito de transformação ao asseverar que “toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço”.

Ademais, ressalta-se que, quando essa ocasião de regozijo advir, decorrente da nossa inesgotável diligência, igualmente seria no mínimo elegante valorizar, considerar, agradecer e legitimar a dimensão da imprescindível influência de todos pelos quais passamos ao longo do nosso percurso existencial. Além disso, é lícito reconhecer o papel primordial dos que estão à nossa volta no presente momento, pois sozinhos somos absolutamente lívidos e vulneráveis e, portanto, imersos e letárgicos na lassidão para oportunizar as tão auspiciosas gretas. Desassistidos, não somos ninguém, tampouco chegaremos a lugar algum.

Este texto foi inspirado no meu discurso de posse na Academia Taubateana de Letras (ATL). Gratidão eterna a todos que, de alguma forma, me ajudaram, me acolheram e confiaram em mim, ao longo de todo o meu percurso existencial.

* Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP.  Membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL), Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (Unitau). No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na PUC-SP.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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