Opinião

Como podemos resistir?

O tormento dessa posição no mundo, infinitamente multidiverso e multicultural, como muito bem nos ensina Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, refere-se ao fato de que “quando se olha muito tempo para o abismo” adverte o pensador do inconfundível e farto bigode, “o abismo olha para você”.

Francisco Estefogo
15/03/23 às 18h00

Os avanços científicos e tecnológicos, sobretudo, alcançados nas últimas décadas, colocam em evidência a centralidade dos encontros, consórcios e união da potência humana para produzir conhecimentos e, assim, de alguma forma, resistir às inexoráveis mazelas da vida. A expectativa de vida dos brasileiros, por exemplo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, passou para em torno de 77 anos em 2022. Na década de 40, a média era 45,5 anos. Um estudo recentemente publicado na “Nature Communications” alerta que a longevidade humana pode chegar muito brevemente por volta de 150 anos. Entre outras conquistas, as vacinas, o saneamento básico, a qualidade da alimentação, a regular coleta de lixo e os progressos nas práticas com a saúde, em particular, da área farmacêutica e médica, ratificam esse avultado feito.

No esteio dessa evolução científica, recentemente, com o nefasto advento da pandemia da COVID-19, que assolou o planeta e dizimou quase 7 milhões de vidas, a abençoada e feliz aliança das comunidades de cientistas e agências reguladoras sanitárias espalhadas pelo planeta desenvolveu, testou e aprovou o santo graal imunizante em apenas 10 meses. A grandeza dessa proeza se destaca ainda mais se considerarmos que a imunização contra a meningite levou quase 100 anos para ser finalizada, e a da pólio, pouco mais de 40. Por mais que há ainda grupos extremistas que desconfiem, ignorem e até neguem tamanho rigor científico de renomadas instituições, mesmo já no século XXI, vale trazer à baila que as novas tecnologias, alicerçadas em profundos estudos, pesquisas e compartilhamento de saberes, são as responsáveis por esse ato de resistência contra a precoce morte.

Ademais, há pouco mais de um mês, um abalo sísmico de 7,8 da escala Richter deixou mais de 50 mil mortos e milhões de desabrigados em parte do território da Turquia e da Síria. Em poucas horas, inúmeras instituições governamentais e não-governamentais (ONGs), dentre outros grupos humanitários, religiosos e solidários, mobilizaram-se para ajudar as vítimas do devastador terremoto. Foram transportadas toneladas de alimentos, produtos de higiene e peças de vestuário, no meio de várias outras formas de amparo, em pouquíssimo tempo. Mais uma vez, o aperfeiçoamento dos meios de transporte, logística e produção de alimentação, em razão da ascensão da tecnologia, indubitavelmente, assentado em conhecimentos oriundos de trabalhos científicos, viabilizou esse movimento do encontro dos povos, absolutamente, coletivo e, destarte, de resistência para, de algum modo, acudir e confortar os vilipendiados Turcos e Sírios.

Embora os eventos supracitados foram todos desenvolvidos, elaborados, organizados e concretizados com base na inestimável agência da coletividade, é de suma importância ressaltar que, lamentavelmente, nem todos usufruem dessas benesses. Pelo contrário. Boa parte da população mundial, normalmente os oprimidos em situações de vulnerabilidade social, esfalfa-se com a insegurança alimentar, não tem acesso à moradia, nem saneamento básico, vacinas e medicamentos, tampouco serviços de qualidade no que tange à saúde e à educação. Dessa forma, à primeira vista, o vigor de resistir, decorrente da rica e fértil reunião de saberes, está infelizmente, restrito a um nicho da humanidade.

Para muito além do progresso tecnológico e de seus desdobramentos na qualidade de forças de resistência, Espinosa (1632-1677), filósofo holandês, discute o ato de resistir como uma potência de afirmação da vida. Esse esforço de perseverança, para se manter na existência do ser, também é conhecido pelo termo latino “conatus”. Segundo o pensador, grosso modo, essa energia é ampliada a partir da combinação dos inúmeros saberes que, por serem inexoráveis em cada ser humano, além de expandir a nossa resistência, possibilita compreender a noção comum e a conquista da liberdade, já que, o erigir de um objetivo coletivo pode transcender os possíveis abusos das relações sociais derivadas de vieses ideológicos.

Apreende-se, assim, que o jubiloso concílio dos conhecimentos, ou seja, uma perspectiva intercultural de compartilhamento de experiências coletivas, atravessado por relações participativas, socialmente justas e democráticas, é o afeto que, por estar à nossa disposição, aumenta a nossa potência de resistir, ser livres, agir e expandir. Dado que o desejo de conhecer é inerente ao ser humano, portanto, que depende da conexão com outro para existir, o pensador holandês enaltece o valor da lépida união de conhecimentos para aumentar a nossa resistência e os limiares da nossa liberdade, ao afirmar que “todo ser é potência e a potencialidade de cada um se desenvolve na relação com o outro”.

No avesso da ótica espinosista, no que diz respeito a como podemos resistir, uma vez fixamente enebriados pelo ópio do racismo, da LGBTQI+fobia, da misoginia, da xenofobia, da aporofobia, da monocultura, do desrespeito à natureza e aos povos originários, do sexismo, bem como do pendor conservador, patriarcal e colonial, um fosso abissal faminto se espreita no horizonte, com garras prontas para dar o bote.

Além de estarmos possivelmente isolados e com a potência de resistir anêmica e claudicante, poderemos ser engolidos por essa infinita escuridão e, por conseguinte, num sopro de retrocesso, “voltarmos para a caverna de Platão” (347-427 a.C.). Ressalta-se que a metáfora do filósofo grego trata do estado de ignorância de alguns que, às vezes, obcecados e fanáticos por grupos dominantes, um por uma única “divindade” terrestre, iludem-se pelas sombras dos sentidos e dos preconceitos que tolhem os conhecimentos fundamentados em bases científicas e teóricas. O tormento dessa posição no mundo, infinitamente multidiverso e multicultural, como muito bem nos ensina Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão, refere-se ao fato de que “quando se olha muito tempo para o abismo” adverte o pensador do inconfundível e farto bigode, “o abismo olha para você”.

“Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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