Opinião

Criar: da dor ao som

É tão primordial a importância da comunicação! É por meio do contato com o outro que nos constituímos, desde o nascimento, quando as mães mostram o mundo ao bebê, permitindo que ele se constitua e ache sua pele, seus contornos.

Paula Liberati* - Hojemais Araçatuba 
24/08/19 às 14h00

“O terrível é emitir um som sem que ele jamais seja ecoado por outro ser humano, o que significa perder-se em espaços infinitos, aniquiladores de qualquer registro de vida psíquica” nos diz Gilberto Safra em seu livro “A face estética do self”.

É tão primordial a importância da comunicação! É por meio do contato com o outro que nos constituímos, desde o nascimento, quando as mães mostram o mundo ao bebê, permitindo que ele se constitua e ache sua pele, seus contornos.

Um aparte para dizer: sinto-me terrivelmente só neste espaço de colunista. Adoraria receber e-mails, por isso, deixo aqui meu contato: paulaliberati@gmail.com e um apelo à conversa. Obrigada.

O maior pavor de qualquer artista é soar ao infinito sem que ninguém o ecoe. Porque o artista é por natureza um ser sentimental, sensível aos acontecimentos, aberto para as trocas e assim espelho para a sociedade se constituir psiquicamente. O artista está aqui para nos ajudar a existir como indivíduos.

Toda criação passa pela individualidade para voar pro mundo. Então, borá lá....
Que lindo ecoar o filme quase autobiográfico (se é que não fica redundante usar este termo) “Dor e Glória”, de Almodóvar. Um filme corajoso, onde o diretor nos conta de onde saíram “as cores de Almodóvar” e expõe o processo criativo e seus custos ao artista. Porque criar dói.

Outra obra corajosa que vi recentemente foi a peça “Mãe ou eu também não gozei”, de Letícia Bassit. Mãe solo que usou de sua dolorosa experiência pessoal para espelhar as várias crianças brasileiras sem reconhecimento paterno e lançou livro, peça e debates. Uma artista que merece nosso ecoar.

E quanta coragem precisamos para criar. Rollo May em seu livro “A coragem de criar” nos mostra que o encontro criativo na arte deve ser total. O grau de intensidade exigido é o que ele chama de paixão, não se referindo a uma quantidade de emoção, mas sim a qualidade do compromisso, que pode estar presente em pequenas experiências, como observar uma árvore. Assim como as crianças fazem. Assim como os artistas fazem. E você? O que te faz pulsar?

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
(Fernando Pessoa)

Foto: Clayton Khan

*Paula Liberati é mãe, atriz, performer e
adora se aventurar. Mas, antes de tudo, é uma apaixonada.

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