As brigas, os desentendimentos, as rupturas, os litígios bem como, num espectro mais global, os conflitos bélicos são regularmente oriundos de embates permeados por ideias divergentes. As contradições se perpetuam em razão dos diferentes matizes ideológicos, dos argumentos díspares e das vivências distintas, dentre outras causas. A considerar que todos nós temos percursos sócio-históricos e culturais diversificados, é possível afirmar que discordar da opinião alheia é perfeitamente inerente à nossa existência. O quiproquó é que, amiúde, não sabemos tirar proveito desse precioso fenômeno para ressignificar a nossa ação humana e construir uma nova realidade baseada numa perspectiva desconhecida, pois o mundo não está perenemente posto. Pelo contrário, infindáveis contendas brotam aqui e acolá, especialmente, no ambiente das redes sociais por causa de convicções discrepantes.
O fato de não se permitir contrariar ou ser contrariado está usualmente atrelado a papeis sociais de subordinação numa ponta, uma vez que, enfraquecidos, agônicos e à margem, alguns de nós nos sentimos diminuídos e vulneráveis, dado que corremos o risco de não ter repertórios para questionar. Quando ousamos discordar, podemos ser anatemizados. Na outra extremidade, no que tange à autoridade, fortalecidos por títulos e posições de destaque, sobretudo, no mundo corporativo e acadêmico, os “ban ban ban” usam o escudo opressor de domínio, anátema e controle para se hermetizarem contra ruídos desestabilizadores. Arrogantes, nutrem a ideia que detém a verdade inquestionável para, então, enfiar goela abaixo dos outros.
Historicamente, nascemos e somos criados numa ambiência social na qual, por exemplo, quem “sabe” é, normalmente, o professor; quem “manda” é o chefe ou os pais, ou ainda o famigerado “o homem da casa”. Em outras palavras, a hierarquia social é a seara definidora dos que estão no topo, a rigor, “legitimadores” da ordem do acontecimento dos eventos. Os que estão nos patamares mais inferiores no tecido social, ou seja, à primeira vista, os estudantes, os empregados, os filhos e filhas, as esposas, os colaboradores e servidores, dentre outras posições da base da pirâmide, apenas obedecem e, claro, não discordam de nada, em tese. São meros apêndices nas relações sociais. É compreensível, pois têm medo de serem reprimidos e vilipendiados, tirarem notas baixas, perderem o emprego, serem presos, quando não serem violentados fisicamente, e por aí vai.
A dinâmica do desacordo, por meio do diálogo, não é um cenário simples de se viver, já que muitos de nós nascemos, crescemos e vivemos num contexto social patriarcal, machista, colonizador e profundamente estruturado pelas relações de poder. Como contraponto, num possível relaxamento da rixa invisível entre as forças sociais, Foucault (1926-1984), filósofo francês, crítico literário e professor da icônica Collège de France, entende que esse custoso afrontamento deve ser feito na relação entre as pessoas. Para esse desafio hercúleo, que beira a utopia, o pensador, do país do vinho e das revoluções emblemáticas, propõe a reflexão com base na seguinte provocação: “não temos que descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos de imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos desse ‘duplo constrangimento’ político, que é a simultânea individualização e totalização próprias às estruturas do poder moderno”.
Ressalta-se que, do ponto de vista da filosofia, a estratégia de usar o diálogo e a contradição para gerar reflexões e mudanças é conhecida como maiêutica, uma das primeiras manifestações do método dialético, pilar do pensamento filosófico. Inspirado por sua mãe, diz a história, parteira, o filósofo grego Sócrates (470 - 399 a.C.) elaborou a maiêutica, do termo grego “maieutike”, isto é, "arte de partejar", “dar à luz” ou “parir”. Dessa forma, na visão do pensador, essa dinâmica está relacionada à geração dos mananciais do conhecimento. Em linhas gerais, trata-se da arte do diálogo e da desconstrução dos argumentos pétreos, calcadas num jogo dialético de sucessivas perguntas e respostas, que desestabilizam o pseudo “dono da verdade” e, teoricamente, o faz pensar em outras possibilidades antes não imaginadas. Mais tarde, Platão (348 - 427 a.C.), filósofo grego e discípulo de Sócrates, adensa a dialética socrática a partir dos desacordos de modo que visões contrárias possam, portanto, construir novos saberes.
Apreende-se, destarte, que discordar é o pulo do gato para o arrefecimento das inclemências do que se acredita ser absolutamente verdadeiro e perene. Ademais, os processos de contradição pressupõem a análise de uma determinada proposição assentada em diversos vieses ideológicos, o que, em certa medida, oportuniza espaços para o engendramento de novas concepções, de significados, de aprendizagens, de histórias, de liberdade e de emancipação. É preciso estarmos porosos para que diferentes maneiras de ver, ser, desejar e agir no mundo nos inundam para possibilitar outras perspectivas e formas de vida. Assim, ao se chocarem com as nossas fossilizadas “pseudoverdades”, muitas vezes, enraizadas em conceituações preconceituosas, silenciadoras, conservadoras e homogeneizadoras, abram os nossos olhos para a potência que temos de, como humanos que todos somos, sermos agentes construtores e transformadores, indubitavelmente, por meio da força coletiva e multidiversa.
Erasmo (1466-1536), filósofo de Roterdã, pautado no diálogo socrático, pontua que somente os fracos e belicistas fazem uso da força na tentativa de propiciar mudanças. Na mesma toada, Voltaire (1694-1778), historiador e filósofo iluminista francês, assevera que é preciso superar a “sombria superstição que induz as almas fracas a imputar crimes a qualquer um que não pense como elas”.
