A nossa experiência sensorial na contemporaneidade é um fenômeno absolutamente alucinante. Os ininterruptos lançamentos de bens materiais, sobretudo, decorrentes dos avanços tecnológicos, e, claro, o galgar por posições de destaque e status social, dentre outras incitações, deixam os nossos desejos à flor da pele. Carros elétricos ultramodernos, celulares superpotentes e multitarefas, postos de trabalhos com salários e bônus milionários, escolas elitizadas com mensalidades de mais de R$ 11.000,00, bem como destinos turísticos paradisíacos são alguns dos elementos que aguçam a nossa insaciável ambição, por mais que esses atrativos modernos, à guisa da racionalidade, estejam ao alcance de pouquíssimos endinheirados.
Embora os projetos de vida sejam centrais para prosseguirmos na nossa existência como seres humanos, a desenfreada busca por esses encantos sedutores e supervalorizados, muitas vezes, inatingíveis para nós, “mortais”, pode acarretar medos, frustrações, depressão, ansiedade e até o sentimento de auto-obrigação. Essa dinâmica, destarte, permeia uma nova cultura que foca, sobremaneiramente, a pura e a única satisfação dos prazeres e, por conseguinte, uma vida norteada pelo consumo uniformizado da massa. No inebriar da positividade tóxica, às vezes, não há espaço para o insucesso, a derrota e a negatividade. O questionamento “e se não der certo” passa longe das nossas reflexões, pois “eu me esforcei e ralei e, portanto, mereço essa glória”.
No esteio da positividade exacerbada e da cobrança dos tempos modernos, no bestseller Sociedade do Cansaço, o filósofo sul-coreano Byung-chul Han discute a constante atividade humana de produção e de incansável desempenho. Cerne do sistema capitalista, o lucro impõe propósitos exagerados, o que nos escraviza nas senzalas do mundo corporativo e no calabouço do isolamento, da individualidade e do egoísmo. Como somos “eternos vencedores”, obviamente, somente no mundo das fadas e dos duendes, o nosso sucesso depende “apenas na nossa força de vontade”. No entanto, apesar de sermos os indivíduos da performance, a configuração da sociedade dos prazeres e dos desejos tem a chance de nos tornar “fracassados”, posto que boa parte dos nossos interesses, principalmente aqueles que estão muito além das nossas fronteiras e possibilidades, como os mencionados previamente, podem não ser, amiúde, plenamente concretizados.
Numa dinâmica de heroísmo, incorporamos uma entidade mediúnica de super-herói para peitar as inexoráveis mazelas da vida e “lutarmos” para conquistar os “nossos sonhos, custe o que custar” (preferencialmente, materiais). Nesse terreno, Nietzche (1844-1900), filósofo e filólogo alemão, na contramão desse nosso pseudo super-herói que vai “arrasar e ser superfeliz”, como a coletividade hodierna almeja e irradia, discute o super-homem, ou além-homem, como aquele que transcende os humanismos e toda a cultura que o acorrenta e o oprime. Por mais que nunca possa se concretizar, na primorosa obra Assim falou Zaratustra, de 1883, Nietzche nos faz refletir sobre a condição de superação dos limites e dos valores impostos pela sociedade (consumista e) reprodutora e, dessa forma, “embevecida da tal felicidade”, tida como “normal”. Pensando na expansão e no desenvolvimento da condição humana, por meio do ato de resistir e lutar, o pensador assevera que o original super-homem “lança a flecha do seu anseio por cima do homem”. Em outras palavras, a felicidade, ou pelo menos, momentos felizes, está calcada no domínio dos nossos próprios desejos e no uso criativo da nossa habilidade humana de se ressignificar e seguir adiante.
Como Schopenhauer (1788-1860), pensador alemão conhecido pelo seu sisudo pessimismo filosófico, entende que a realidade é norteada pela vontade, mas nunca pela razão, a busca incessante de desejos impossíveis é o manancial de todo sofrimento humano. “Sopramos uma bolha de sabão até ficar o maior possível, mesmo sabendo que ela vai explodir”, justifica o filósofo cético. No reverso, Schopenhauer propõe a potência intelectual para sossegar a vontade, de modo que o constante querer seja negado e os desejos, porventura, sejam aniquilados. “Sem a negação completa do querer, não há salvação verdadeira, libertação efetiva da vida e da dor”, prescreve o descrente sábio de palavras amargas e lúgubres.
À frente das ponderações filosóficas supracitadas, considerando que deixemos de viver sob a égide dos voos de galinha da onipresente positividade, de ser implacáveis anabolizados super-heróis, assim como de conter a nossas vontades a partir do nosso potencial intelectual de racionalizar, é possível afirmar que, se os nossos planos não derem certo, à primeira vista, podemos repensar os nossos limites e desenhar novos percursos. A plenitude da vida vai muito além de um mero desejo satisfeito por um, por exemplo, bólido último-tipo na garagem, ou um celular com capacidade de inúmeros “Gs” que “já até faz café” (muito brevemente!). Todos esses desejos são preponderantemente efêmeros (até porque logo teremos outros!). Caso não “de certo” a realização de tantos desejos e, por conseguinte, nos sintamos “losers”, vale lembrar as sábias e atemporais palavras de Platão (348-428 a.C.), filósofo grego: “a pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos”.
