Opinião

Educação e Justiça

"Uma pessoa justa sempre agirá de forma justa, independentemente do que os outros digam ou façam"

Leonardo Namba Fadil*
09/02/23 às 10h54

Em um diálogo platônico, Gláucon e seu irmão Adimanto confrontam Sócrates afirmando que as pessoas só são honestas porque são obrigadas pelas outras ou porque é útil que sejam (ou ao menos pareçam) assim. Eles fazem um apelo para que o filósofo demonstre que a justiça tem um valor próprio e que os humanos devem ser éticos ainda que não estejam sendo observados.

Sócrates passa a explicar que a alma possui três partes: a racional, a agressiva e a apetitiva. A primeira tem como virtude a sabedoria, devendo governar as outras duas. A parte agressiva, por sua vez, se liga ao dom da coragem e é utilizada para que uma pessoa possa atuar no mundo de forma efetiva. Por fim, a apetitiva tem a ver com os desejos e prazeres de uma pessoa, sendo seu valor a temperança, a capacidade de controlar esses instintos. 

Para saber diferenciar o certo do errado, as pessoas devem se submeter a um longo processo de educação, que abrange os estudos, a ginástica e as artes. É essa aprendizagem e dedicação que faz com que o indivíduo tenha autodomínio/autocontrole e organize a as partes de sua alma de forma harmônica, tornando-a justa. Por outro lado, naquele que não se preparou da forma correta uma das partes pode vir a ocupar uma tarefa que não deveria, o que faz surgir a injustiça e os vícios. Assim, por exemplo, se a parte apetitiva dominar as outras, a pessoa pode se tornar covarde, ignorante ou corrupta. 

Ao contrário do defendido pelos irmãos, uma pessoa injusta não possui uma vida boa, pois ela não experimenta a verdadeira amizade e a verdadeira liberdade. Seus relacionamentos são egoístas e tóxicos; sua alma é escrava dos instintos. Ela vive desconfiada, insatisfeita, com medo e cheia de remorso. Ou seja, ela é infeliz. 

Para Sócrates, então, só a educação é capaz de criar indivíduos éticos e incorruptíveis. Uma pessoa justa sempre agirá de forma justa, independentemente do que os outros digam ou façam, pois a sua alma é equilibrada e harmônica. Nela, a sabedoria impera e sempre guia o homem para o bem, fazendo-o encontrar a felicidade. 

(Foto: arquivo pessoal)

* Leonardo Namba Fadil é procurador do município de Araçatuba, especialista em Direito Constitucional e pós-graduando em religião, cultura e vida contemporânea. É também professor de filosofia e sociologia na Rede Emancipa.


** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação. 

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