A sociedade passou por grandes transformações. Entre elas, o êxodo rural. O homem mudou-se para os centros urbanos, passando a trabalhar e conviver com milhões de indivíduos estranhos a ele. Assim, causar uma boa impressão no ambiente de trabalho, no comércio, na escola e nos seus negócios, se tornou mais importante que os laços familiares e a convivência na vizinhança.
O mundo contemporâneo foi atraído à conduta externa, socialmente agradável e voltada ao entretenimento. O foco está no teatral, na impressão pública, ou seja, como os outros nos veem. As pessoas ousadas, extrovertidas e engraçadas tornaram-se mais populares. O fantástico, o impressionante, o radiante, o dominante, o célebre, o comediante, o brilhante, o extravagante e o divertido, são supervalorizados. Alteramos o valor da conduta e da importância do caráter para aquilo que poderíamos chamar de “o culto à personalidade”.
Nesse contexto, os melhores são os mais belos e elegantes, os mais entusiasmados e simpáticos, os extremamente vigorosos e malhados, e aqueles que conseguem manter no rosto, a qualquer custo , um leve sorriso de ator confiante e narcisista. A pressão para projetar confiança, brilho e controle em todas as situações é imensa. Os palestrantes motivacionais bem-sucedidos e preferidos pela sociedade são geralmente falastrões extrovertidos e espertos, comunicadores brincalhões e piadistas profissionais (haja vista o fenômeno das comédias stand up e vídeos cômicos nas redes sociais).
Homens de conduta e caráter como um Abraão Lincoln e da integridade e espiritualidade de uma Madre Tereza de Calcutá, entre outros cidadãos mais pensativos, introvertidos que sempre evitaram os holofotes, cada vez tem menos espaço social.
A invenção da autoajuda se tornou uma das ferramentas mais poderosas no mundo do
“culto à
personalidade”
. Produziu-se uma geração inteira de vendedores/treinadores (coach), que vendem tudo, desde os produtos tangíveis, mercadorias expostas nas prateleiras, até ideias intangíveis como fama, poder, alegria, amor, amizade, espiritualidade, ilusões, famílias, mulheres e milhares de outros sonhos de consumo e promessas de felicidade. Participantes de cursos, seminários e conferências vorazmente buscam sucesso, felicidade e prosperidade enquanto desfilam animadamente pelas arenas dos grandes hotéis com sacolas cheias de livros (best-sellers), etc.
“Você está feliz com sua vida?” , começa a palestra com entusiasmo logo pela manhã. “Libere seu poder interior”, continua o palestrante em meio a piadas e testemunhos impressionantes. Cercados pelas recepcionistas bem vestidas nos saguões, boa música, telas gigantescas dos dois lados do palco e banners coloridos pelos corredores, milhões de pessoas procuram se sentir melhor, mais animadas, menos deprimidas, menos estressadas, em busca da felicidade e do “segredo da vida”.
Uma das principais dimensões da vida, por outro lado, é a autoconsciência e capacidade para compreender as áreas fortes e fracas. Albert Einstein confessou que sabia com toda a certeza que ele mesmo não possuía nenhum talento especial; “a obsessão, a curiosidade e a obstinada resistência, combinados com a autocrítica, trouxeram-me para as minhas ideias”.
Devemos buscar uma avaliação mais precisa das nossas qualidades e habilidades. Como o filósofo moral Ralph McInerny nota em um pungente texto, “cada um de nós é limitado em formas aparentemente ilimitadas”. Devemos reconhecer que mesmo o mais virtuoso não pode estar totalmente seguro que não esteja prejudicando alguém, o mais sábio não pode ter certeza que nunca comete um erro, e os mais poderosos reconhecem fatos incontornáveis da condição humana e aconselham humildade genuína diante deles. Os Alcoólicos Anônimos têm uma excelente definição clássica de humildade: “sinceridade máxima, levada ao extremo”.
A essência de uma vida saudável e equilibrada mentalmente é a humildade (do grego “húmus”= aquele que está no chão; do latim: “humilitas” = pouca elevação). Ela constitui uma visão correta de si mesma.
Nas palavras de R. A. Emmons: “Ser humilde não é ter uma baixa opinião de si mesmo, é ter uma exata opinião de si". Assim sendo, humildade deve ser abordada em termos de uma rigorosa autoavaliação. O filósofo francês Comte-Sponville (2001) sugeriu que humildade deveria ser pensada como a “ciência do self” , pois ela surge de um entendimento confiável entre os pontos fortes e fracos do eu .
Desta forma, humildade é uma consciência de tudo o que se é e de tudo o que se não é. Se as pessoas desejam praticar realmente uma vida responsável, liberta da egolatria, elas deveriam amar a verdade mais do que si mesmos, uma vez que todo conhecimento é um ferimento ao próprio ego.
