Opinião

Entendendo melhor o Japão: “shinto”, “do” e “kata”

"A partir da grande propagação do shinto no século XIII, a palavra se espalha por toda a cultura japonesa para indicar a presença dos valores nipônicos, adquirindo uma conotação nobre"

Leonardo Namba Fadil*
12/05/23 às 14h35

O xintoísmo é uma religião de origem no Japão que muito influenciou a sua cultura. A palavra deriva de shinto, cuja escrita em japonês é formada pelos caracteres que significam Deus, deuses ou divindades (shin/kami), e caminho (do), sendo comumente traduzida para “o caminho dos deuses”. 

No início se tratava de um conjunto de crenças e práticas locais desorganizadas que sequer teria um fundador. A partir do século VI passou a receber influências de outras religiões, inicialmente do budismo e, após, do confucionismo e o taoísmo. 

Segundo o xintoísmo, os deuses (kami) estariam presentes em todas as formas de vida, em lagos, florestas, montanhas, em forças da natureza e até mesmo em atividades ou profissões, ou seja, haveria algo de divino em tudo. Apenas algumas dessas divindades teriam formas humanas (ikigami), tal como ocorre na mitologia grega.

A mitologia japonesa conta que o Japão foi criado pelos deuses Izanagi e Izanami, além do que a linhagem imperial teria ligação direta com a deusa do sol Amaterasu - só após o fim da Segunda Guerra Mundial o imperador renuncia ao seu título de deus. Ademais, todos eram descendentes de divindades, podendo até mesmo um indivíduo se tornar um kami ao desenvolver uma capacidade extraordinária.

Outra característica importante é que os humanos não se distinguiam da natureza, sendo que até o século XVIII sequer existia uma palavra para ela, tal como já ocorria no ocidente. Não por acaso não há sacrifício de animais nessa religião. 

Essas crenças influenciavam a vida dos japoneses de forma intensa. Além de fornecer explicações sobre o mundo, elas também forneciam normas éticas para o dia a dia. Através dos rituais de purificação, inclusive as limpezas de locais, era possível restaurar a harmonia com os kami e obter favores deles, o que explica ainda hoje todo o cuidado para manter lugares públicos e privados limpos.

A palavra “aware”, por sua vez, representa a emoção complexa que as pessoas sentem ao entender que tudo o que existe é fugaz, efêmero, passageiro, e possui fraqueza e imperfeição. Ao senti-la, o homem se identifica com a natureza, sendo tomado pela paz e tranquilidade.

Nota-se que nessa religião não há uma busca por racionalidade na vida, verdades ou salvação eterna. Há uma relação estética com o mundo, o que significa que a relação com ele é intuitiva e emocional, havendo uma aceitação dele como ele é e uma busca por tornar a vida o melhor possível, o que implica, inclusive, na prática de boas ações em favor da comunidade. Isto também leva à constatação de que a vida simples, sóbria e humilde é a que possui maior valor, pois ela permite às pessoas reencontrar o que é essencial e ressignificar a própria vida. 

Dito isto, o “do”, como dito acima, significa caminho e inicialmente poderia se referir a várias coisas, como as artes, doutrinas religiosas e sistemas filosóficos. A partir da grande propagação do shinto no século XIII, a palavra se espalha por toda a cultura japonesa para indicar a presença dos valores nipônicos, adquirindo uma conotação nobre. O “do” passa a demonstrar, entre outras coisas, a necessidade de aprendizagem e aperfeiçoamento técnico, moral e espiritual. Ele permite a iluminação de uma pessoa, o acesso ao divino, permitindo a compreensão de si próprio.    

Ligada à ideia de “do” está o “kata”, que expressa uma forma de fazer as coisas; é uma sequência formal de gestos simples e cujo significado foi construído socialmente ao longo dos anos. 

Essa prática se iniciou com as classes guerreiras nos tempos de paz e depois se disseminou para as artes (taiko, teatro, bonsai, cerimônia do chá, etc.) e para as práticas cotidianas. O bushido (caminho do guerreiro) pregava, de forma semelhante aos estoicos, a confiança no destino, a aceitação do que é inevitável, o desapego à vida e a afinidade com a morte. A aceitação da morte e a prática dos valores do bushido (inclusive pelo kata) levariam as pessoas a um estado de pureza e iluminação por meio de práticas físicas e não apenas pelas tradicionais, como a meditação sentada (“zazen”).

Por meio do kata, une-se a técnica à realização espiritual e as artes se tornam um “do”. O praticante então repetirá o mesmo gesto por várias e várias vezes até que atinja a perfeição, que, para os japoneses, não é acessível apenas aos deuses, mas também aos seres humanos. O indivíduo desenvolve uma técnica na qual não há distinção entre corpo e mente, de modo que o “kata” serve para o desenvolvimento do pensamento intuitivo. A técnica não é um instrumento, mas um fim em si, e o seu desenvolvimento depende de a pessoa também se tornar melhor – a técnica perfeita só pertence ao indivíduo perfeito. 

O desenvolvimento da técnica superior leva a atingir o mesmo estado que visa o budismo – a não mente, livre de julgamentos, que permite ver as coisas como elas realmente são, de modo que muitas artes passaram a dispensar práticas religiosas para alcançar certos estados espirituais.  O executor do “kata” mantém sua calma e atenção, com domínio total dos sentimentos e das emoções. Seguir o “do” por meio do kata leva o praticante a atingir um estado duradouro de atenção total em todos os aspectos da vida, o que permite a ele uma vida plena.  

É interessante notar também que, através dessa forma, se ligariam o interior do indivíduo (kokoro) e a ordem natural do universo, de modo que a execução incorreta quebra a harmonia entre homem e natureza e, na crença popular, pode acarretar punições para a comunidade. Ao longo dos anos, isso torna a sociedade japonesa cada vez mais exigente e rígida quanto à adequação das pessoas em fazer tudo do modo certo, o que possibilita que na década de 1960 seus produtos industrializados figurem entre os melhores do mundo. Mas ao mesmo tempo gera forte controle social, exigências, críticas e discriminação (racial, cultural, sexual e etária). 

Resumindo, por meio de um “kata”, segue-se o caminho (“do”) para que um indivíduo se desenvolva e possa viver plenamente, em harmonia com a natureza, a sociedade e consigo, tal como prega o shinto. Embora muitas vezes já esteja desconectado do shinto, o “kata” possui um elemento espiritual que não pode ser separado da prática física, sendo certo que não se trata de uma forma ligada apenas a questões estéticas ou práticas. A consciência disso é necessária para que a prática não se torne vazia e sem significado. 

Tudo isso que foi dito indica vários valores da sociedade japonesa, tais como a humildade, a abnegação e a busca do aperfeiçoamento constante, inclusive pessoal.

Isso significa que todos os japoneses possuem essas qualidades?

Óbvio que não. 

(Foto: arquivo pessoal)

* Leonardo Namba Fadil é procurador do município de Araçatuba, especialista em Direito Constitucional e pós-graduando em religião, cultura e vida contemporânea. É também professor de filosofia e sociologia na Rede Emancipa.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação. 

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