Mesmo que as quantidades estejam abaixo do VMP (Valor Máximo Permitido), ou seja, mesmo a água sendo potável segundo o padrão de potabilidade estabelecido pelo Ministério da Saúde, esse coquetel com traços de agrotóxicos é ingerido pela população de Araçatuba, Birigui e tantas outras cidades da nossa região, Brasil e mundo.
Importante: o fato dos índices de agrotóxicos na água estarem abaixo do VMP, segundo padrão nacional de potabilidade, não significa terminantemente que não provoquem consequências para a saúde.
A doutora Larissa Mies Bombardi, professora e pesquisadora pelo Departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo), elaborou o atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, onde fica evidente que o padrão brasileiro de potabilidade da água é bastante permissivo e defasado.
O atlas ilustra que no País, o VMP para alguns agrotóxicos é de centenas a milhares de vezes maior que o da UE (União Europeia). O Glifosato, por exemplo, é 5.000 vezes maior, o 2,4-D, 300 vezes maior, e o Mancozebe, 1.800 vezes maior. Eles são o 1º, 2º e 8º mais vendidos no Brasil, respectivamente. O atlas também mostra que há agrotóxicos banidos na UE, e que são amplamente aplicados no Brasil, que sequer têm estabelecidos o VMP pelo padrão nacional, como o Acefato, 3º mais comercializado no nosso País.
Além da permissividade e defasagem, nossa legislação não considera o perigoso “efeito coquetel”, não estabelecendo o VMP para o conjunto de químicos.
A causa não está nas estações de tratamento de água, já que Araçatuba e Birigui têm estações convencionais eficientes. Só que estas estações, por melhor dimensionadas e operadas que sejam, não têm capacidade de remover grande parte dos agrotóxicos persistentes.
Está no campo. A aplicação em si de agrotóxicos, agravada por ocasiões de aplicação sem maiores critérios técnicos, o descuido na conservação do solo em várias propriedades rurais e a falta de mata ciliar nas áreas de mananciais compõem a raiz do problema.
Das nascentes dos Ribeirões Baguaçu e Baixotes, 99% estão perturbadas ou degradadas, conforme estudo financiado pelo Fundo Estadual de Recursos Hídricos. Isso nos diz que a água já na nascente está muito vulnerável à contaminação superficial.
A solução, pelo menos para minimizar o máximo possível o coquetel que bebemos, passa pela elaboração e aplicação de ações de um Plano de Proteção dos Mananciais, prevendo para a área de manancial a recuperação da mata ciliar, programas de conservação do solo e maiores restrições ao uso de agrotóxicos.