Opinião

Estou triste!

"A cura para a tristeza não está em contemplar a própria tristeza, mas em encará-la como uma oportunidade de crescimento e amadurecimento"

Hoje Mais
13/07/23 às 15h15

Embora essa não seja uma boa frase para ser postada, até porque não renderia likes, curtidas, compartilhamentos, etc, aliás, tal afirmação contraria todo o objetivo do marketing que se busca, hoje em dia, através das redes sociais, onde tudo parece estar “sempre” bem.

Porém, contrariando tudo isso, fato é que, a tristeza é uma condição humana antiga. Tanto é assim que, filósofos, dramaturgos, poetas, compositores, sempre exploraram e falaram desse sentimento inerente à existência humana. Em cada época lidou-se com ela ao seu modo.

Na nossa, tristeza é repelida a todo custo e encarada como uma desgraça ou até sinônimo de fraqueza daquele que a está experimentando. Não à toa, a indústria farmacêutica, lucra bilhões com a fabricação e venda de remédios que são receitados e usados em grande escala como se fossem capazes de produzir alegria.

No entanto, é necessário distinguir tristeza de tristeza, tristeza temporária e tristeza permanente, tristeza como uma circunstância e tristeza como uma condição. É claro que ficamos tristes quando nossos planos não se realizam, quando não somos bem tratados ou bem recebidos num local.

Ficamos tristes quando não conseguimos comprar um produto que tanto almejávamos ou, quando o recebemos, notamos que não tinha tudo o que desejávamos que tivesse. Ficamos tristes quando perdemos uma pessoa querida, quer por morte ou por separação. Ficamos tristes quando somos obrigados a ficar em casa, embora quiséssemos estar em outro lugar. Ficamos tristes quando alguém a quem amamos está sofrendo. Ficamos tristes quando somos confrontados com a miséria e a injustiça social de nosso mundo. Ficamos tristes quando estamos cansados física, emocional ou espiritualmente.

Para cada uma destas expressões da tristeza, há um caminho a ser percorrido. No entanto, como agir ou reagir quando somos acometidos por aquela tristeza que não sabemos explicar de onde vem, nem qual sua origem ou causa? Ela simplesmente chegou e se instalou, sem mandar avisos. Difícil lidar com esse tipo de tristeza sem uma causa aparente, mas que é capaz de levar à angústia, à depressão.

O compositor e poeta Davi (rei de Israel), descreve sua tristeza como a presença de sentimentos diversos, assim, talvez, como pode acontecer muitas vezes conosco. No chamado Livro dos Salmos (não quero trazer aqui nenhuma carga religiosa, mas apenas como fonte literária), ele descreve assim sua experiência com a tristeza: “Por que estás assim tão abatida, ó minha alma? Por que te angustias dentro de mim?” (Salmos 42:5)

No seu desabafo, ele se compara a uma terra árida, ressecada pelo sol, ávida por chuva. Ao tempo do salmista, havia muitos cervos nos desertos de seu país, e estes eram perseguidos pelos cães. Todavia, eles encontravam salvação nos riachos profundos, nos quais mergulhavam e não podiam ser alcançados. A água, para eles, era a salvação.

Da mesma forma, há muitos fugindo dos cães existenciais, desesperados para encontrarem um lugar de fuga. Muitos estão percorrendo um deserto árido, no qual não encontram um oásis e, assim, são tomados pelo cansaço e angústia.

Outros tantos, estão profundamente tristes e consumidos por uma saudade de um tempo em que não volta mais; tempos que foram felizes e não sabiam, como diz a maioria. Porém, seja qual for a causa da sua tristeza (identificada ou não), é fundamental que tenhamos uma visão adequada sobre ela.

Podemos começar não confundindo momentos tristes com tristeza, que é um sentimento profundo, doloroso e intenso. Não pense que a vida seja só festa, porque não é e não pode ser. A semana tem sete dias e não apenas fim de semana. Todos nós temos dias bons e dias ruins, faz parte da textura da vida.

Também é aconselhável fazermos uma autoanálise da genuína causa da tristeza que estamos sentindo. Tente descobrir quando o seu humor mudou. Você se tornou triste desde quando perdeu uma pessoa muito amada?

Sua tristeza tem toda a razão para existir, mas nenhuma razão para continuar indefinidamente. Talvez, você passou a experimentá-la quando vários de seus planos não deram certo. Você tem até uma certa razão, mas é essencial fazer um balanço e chegar à conclusão do que seja mais adequado: persistir nos seus planos ou mudar de planos. Lembre-se: alguns são irrealizáveis por natureza.

Nesse sentido, a tristeza não é de toda ruim, pois, pode nos levar a refletir sobre nossos atos e mudarmos para melhor. Agora, algo fundamental, quando estiver passando pelo vale da tristeza: Não lance mão de recursos ilegítimos para pôr fim à tristeza. Pelo contrário, tome-a como um convite à reflexão, sozinho ou com a ajuda de um profissional, para encontrar as suas causas e, logo, os caminhos a serem tomados.

Não lance mão do álcool e ou de qualquer outro “entorpecente”. Não basta dizer como no samba clássico, que diz: "Tristeza, por favor vá embora, minha alma que chora está vendo o meu fim”. Desculpe, Niltinho Tristeza, não basta pedir para que a tristeza vá. Ela não irá, até porque não tem asas próprias.

Não use medicamentos sem orientação segura para enviar para longe sua tristeza; ela voltará (efeito rebote). A cura para a tristeza não está em contemplar a própria tristeza, mas em encará-la como uma oportunidade de crescimento e amadurecimento.

Interessante é que quando se atinge os altos picos ou o cume de uma montanha, não encontramos lá vegetação. Porém, quando olhamos para baixo, enxergamos uma vegetação vasta no vale. Isso porque, é no vale que se dá o crescimento!

Metaforicamente, o vale da tristeza pelo qual, talvez esteja atravessando, pode se tornar o período mais produtivo de sua vida. Pense nisso!

Foto: Divulgação

 

 

José Márcio Mantello é advogado criminalista na comarca de Araçatuba e Teólogo

Graduado em Direito pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Docência do Ensino Técnico e Superior pela UNITOLEDO; Pós-Graduação em Prática Penal Avançada pelo DAMÁSIO EDUCACIONAL; Especialização em Execução Penal pelo IDPB – Rio de Janeiro
Atuação no Tribunal do Júri

 

 

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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