Dimensionar as razões pelas quais levantamos da cama todos os dias pode nos levar a uma profusão de respostas. As ações direcionadas ao trabalho, aos estudos, à família, à saúde, aos amigos e à aquisição de um bem material, dentre outros motivos, são algumas das justificativas que nos encorajam a enfrentar mais um novo amanhecer e ir à labuta. Nesse processo, alguns podem até acreditar que, ao fazer essas atividades e, assim, realizar os sonhos, em particular, os relacionados a posses, atingimos a felicidade plena. “Só que não”, segundo algumas correntes filosóficas. Esses lapsos jubilosos são absolutamente efêmeros e, amiúde, têm, teoricamente, pouco impacto nas nossas vidas.
Embora cada um de nós possa ter diferentes motivos particulares, individuais e legítimos para deixar a maciez e o conforto dos lençóis, que, a rigor, acolhem-nos todas as noites, há uma força impessoal imbricada nessa dinâmica. Para alguns pensadores, como, por exemplo, Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, todo e qualquer movimento em direção a um objetivo, que antecede a atividade, está no bojo da vontade. O imbróglio é refletir sobre a gênese dessa idiossincrasia particularmente humana, decorrente de uma, a priori, necessidade, bem como acerca das implicações da irrefreável busca por instrumentos para satisfazê-la, pois, uma vez atendida, um novo querer certamente despontará no horizonte. Na verdade, trata-se de um círculo ininterrupto, intermitente, infinito e, muito provavelmente, dissonante do bem comum e do equilíbrio entre as vontades e a sensatez.
Schopenhauer pauta-se na seguinte alegoria para se referir à vontade: “o homem forte e cego que carrega nos ombros o homem manco que enxerga”. Ou seja, não temos vontade de conseguir algo porque inventamos desculpas para atingi-la, mas encontramos pretextos para suprimi-la porque simplesmente a desejamos. Dito de outra forma, a nossa famélica vontade transcende a racionalidade. O impasse é que o esfomeado apetite por algo é indeterminado, enquanto a sua concretização é possivelmente limitada. Consequentemente, o sofrimento e o tédio se instauram. O desafio é vencer as mazelas da vida, decorrentes dessa incessante batalha para saciar os nossos indeléveis anseios. Nesse sentido, pelo prisma schopenhaueriano, o nosso percurso existencial transita entre a necessidade, isto é, a dor, e a satisfação, ou melhor dizendo, o tédio. Em outras palavras, a nossa realidade é canalizada pela vontade. Essa é uma das premissas que torna Schopenhauer conhecido pelo seu perene pessimismo. No entanto, o incrédulo e ranzinza sábio entende que o triunfo sobre os padecimentos existenciais, oriundos dos desapontamentos de um desejo irrealizado, poderá ser factível se estiver circunscrito ao conhecimento e à sabedoria. Nessa seara, Schopenhauer ratifica a importância decisiva de conhecermos as nossas paixões ao asseverar que “nada nos protegerá tanto da compulsão externa quanto o controle de nós mesmos”.
A depender dos artefatos que o mundo contemporâneo cotidianamente nos inunda de forma visceral e incessante, a partir dos incontáveis fascínios (para alguns, claro) do capitalismo selvagem em relação aos novos produtos e serviços, diariamente postos em circulação no mercado pela ofensiva midiática, somos altamente estimulados ao desenfreado consumo, sobretudo, enfeitiçados pelo marketing que apregoa a estilização da vida e, portanto, à primeira vista, a felicidade nababesca. Na ânsia de nos afirmarmos na sociedade para superar as nossas vontades, muitas vezes, consumimos mais mercadorias padronizadas na esteira de narrativas publicitárias, contagiantes, persuasivas e sedutoras (normalmente mentirosas). Novamente, essa mecânica consumista pode alimentar a órbita sem fim de querer, realizar e, depois, desejar de novo, de maneira ordenada e contínua. Resultante dessa operação, as concepções schopenhauerianas, por mais lúgubres que sejam, inevitavelmente voltam à baila.
Sobreleva ressaltar que, muito antes de quando as proposições filosóficas supracitadas foram elaboradas, lá no longínquo século V a. C, Aristóteles, filósofo grego, já apontava contingências semelhantes concernentes ao desejo, à vontade e ao querer. De acordo com o pensador da Grécia, que pavimentou o pensamento ocidental, a felicidade exequível é a constante prática da virtude orientada para o controle dos nossos desejos pela razão e pelo conhecimento. Na mesma linha, conforme Platão (427 a.C. - 347 a.C.) preconizava, também filósofo grego e mestre de Aristóteles, perseguir o prazer a todo custo pode ofuscar o bom senso, criando um tipo de cegueira perante a realidade. À luz dessas interlocuções de pensamentos, é patente afirmar que a bala de prata contra o círculo vicioso da inesgotável vontade se constitui, a princípio, assentada no enrobustecimento da nossa sapiência e na expansão dos nossos saberes.
Frente à essa demanda, particularmente, na hodiernidade do consumismo, tendente ao pantagruelismo, talvez ressignificar a lista de intenções, que, em tese, convida-nos a relutantemente abandonar os aconchegantes braços de Morfeu, pode ser um expediente para refletirmos acerca do nosso “querer-viver” diário. Ler livros de temáticas, estilos e gêneros literários diversificados para expandir repertórios e referências, ir a museus e galerias, fazer amizades com pessoas de grupos sociais diferentes, visitar lugares nunca vistos, conhecer culturas, etnias, religiões e costumes diversos, deleitar-se com pratos jamais saboreados, embrenhar-se em experiências imersivas inéditas, iniciar novos cursos e esportes, celebrar respeitosamente a multidiversidade, dentre outras milhares de práticas pluriculturais, podem estruturar atos de resistência e tonificar o nossa intelectualidade contra a onipresente, teimosa e esganada vontade.
Para além do amansamento do nosso querer e desejos, Jonathan Edwards (1703–1758), filósofo americano, corrobora o vigor do nosso intelecto, uma vez anabolizado, ao afirmar: “procure crescer em conhecimento, não principalmente por causa dos aplausos ou para permitir que você argumente com os outros; mas procure-o para benefício de sua própria alma”. Destarte, apreende-se, assim, que, embora ter um carrão na garagem ou uma profícua carreira profissional de status seja, decerto, instigante, sair da cama todos os dias com diferentes propósitos pode potencializar a nossa alma na sua límpida pureza, como de fato é da essência humana, para, então, legitimar a fruição da vontade de modo a transpor e resistir as tentações materiais do mundo sensível e moderno.
