Opinião

Ofò

"É importante destacar que o patrimônio cultural brasileiro não é apenas o que está escrito, que acaba sendo direcionado às pessoas alfabetizadas"

Eliandra Barreto - Hojemais Araçatuba 
06/07/19 às 10h05

Ofò é uma palavra de origem yorubá, que designa o encantamento por meio das palavras, que por sua vez determinam que uma força aja sobre um ato. O povo yorubá acredita muito no poder da palavra falada e é no valor dela que se encontra o ofò, o aspecto oral possuidor de força.

Griot é uma palavra francesa, mas tem sua origem na língua bamanan, originária do noroeste da África, antiga império do Mali. Vale destacar o seu significado: “o sangue que circula” e é utilizada para descrever uma pessoa que transmite seus conhecimentos oralmente.

A educação pela oralidade, por mestres e mestras (raiz) e griô (rama), é geradora de tradições e valores civilizatórios e integra a identidade, a ciência, a arte, a cultura, além de compartilhar afetos.

As comunidades de matrizes africanas estão fundamentalmente baseadas no diálogo entre indivíduos e na comunicação entre grupos. Mestres e mestras são os agentes ativos e naturais nessas conversações. Nesse sentido, cito os quilombos, territórios sagrados, que sempre foram formas de resistência para conservação de terras, seus espaços de vivência e sua cultura, e que também valorizam essa transmissão oral de saberes e fazeres ancestrais.

Por isso, é importante destacar que o patrimônio cultural brasileiro não é apenas o que está escrito, que acaba sendo direcionado às pessoas alfabetizadas.

O patrimônio cultural também é formado por bens imateriais, transmitidos oralmente em diversas áreas do conhecimento e que não fica restrito à arte e religião, mas também à capoeira, educação e diversos contextos ancestrais civilizatórios que reconhecem a diversidade cultural, as afirmações de direitos e princípios indissociáveis da prática de uma escola da vida e a ligação sagrada entre o ser e sua palavra.

A importância do conhecimento religa e reintegra a responsabilidade entre o ser e a vida na terra, os cuidados com a natureza e a harmonia do universo. Ainda traz o pertencimento na cosmogonia, numa vivência integracional para um desenvolvimento da consciência ética.

O saber, a palavra ou o ofò, é uma propriedade e autoridade da grande cadeia ancestral de transmissão de saberes e fazeres. A palavra e o diálogo são compromissos sagrados com a vida, é uma conspiração afetiva, mágica e política de participação social, coletiva, repleta de diálogos e práticas de ancestralidade e identidade na educação, no desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária.
Axé!

 

 

Eliandra Barreto é ekeji, produtora cultural e coordenadora do Centro Cultural Obadará Africanidade de Araçatuba

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