Opinião

Sagrada floresta

"A socialização desses saberes é vital para a construção de uma sociedade com valores civilizatórios imbuídos de ancestralidade baseados na troca generosa da utilização dos recursos naturais e sua preservação"

Eliandra Barreto* - Hojemais Araçatuba 
10/09/19 às 12h11

A resistência e a riqueza da cultura africana que se uniram com as tradições dos povos originários (indígenas), contribuíram ricamente na formação da identidade brasileira.

Tradições alimentares, de crenças, de reverências à natureza, de qualidade de vida e promoção da saúde, são algumas das contribuições que as comunidades tradicionais de matriz africana vêm difundindo na integração e preservação e relação homem x natureza, ao longo de muitas gerações, por meio da transmissão dos saberes e fazeres ancestrais.

A socialização desses saberes é vital para a construção de uma sociedade com valores civilizatórios imbuídos de ancestralidade baseados na troca generosa da utilização dos recursos naturais e sua preservação.

Os espaços de prática das religiões de matrizes africanas são também espaços de preservação das tradições ancestrais, de luta contra o preconceito, contra a desigualdade social, o racismo, o racismo ambiental e a valorização e preservação do meio ambiente, uma vez que cultuam a natureza em toda sua plenitude.

O culto à natureza, inclusive, agrega folhas (sagradas para medicamentos e liturgias), animais (segurança alimentar, liturgia e equilíbrio), sementes (germinação/preservação, segurança alimentar, liturgia), rios e mares ( água como fonte primordial da vida), floresta ( preservação da Terra, da vida, segurança alimentar, liturgias, medicamentos), bem como os elementos e o movimento cósmico.

Essas vivências de promoção da saúde, de cura do corpo e do “espírito”, agregam profundo conhecimento do poder curativo das plantas. Aqui, uso uma frase da música “Dembwa”, de Tiganá Santana: “ O tempo pediu pra folha dançar, pra folha dançar e nunca parar e sempre curar o dia.”

Esse elo com a natureza também é reconhecido nas tradições dos povos originários que também utilizam a floresta como fonte de alimento, medicamento, liturgia e a floresta é sua própria substância. Nesse âmbito, os povos tradicionais de matriz africana, como quilombos e povos de terreiro, povos originários, mestres e mestras das culturas populares, fomentam a preservação ambiental, proteção dos mananciais e florestas bem como comungam de suas propriedades curativas e alimentares.

O vórtice da colonização e exploração, a falta de políticas públicas preservacionistas e um projeto de exploração ambiental que respeite a regeneração do solo, das plantas, da água e os valores do progresso no mundo globalizado vêm deturpando e corrompendo a maneira de explorar a natureza.

Mais de 50% dos rios da terra estão poluídos ou sendo extintos. O Brasil possui cerca de 8% da água disponível no planeta e aproximadamente 80% dessa água está localizada na região amazônica.

A natureza é a essência da humanidade e seus destinos estão intrinsecamente ligados.

*Eliandra Barreto é ekeji, produtora cultural e coordenadora do Centro Cultural Obadará Africanidade de Araçatuba.

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