Cabelos ao vento, um rolê de moto, a vida num barco pelos oceanos, solteirice, infinitas possibilidades de agir. Essas são algumas das representações que temos de liberdade. Também podemos nos iludir com a sensação de sermos livres frente às contingências das escolhas que nos são apresentadas. São inúmeras as opções de carreiras a seguir, tipos de alimentos, roupas, passeios, objetos, dentre outras alternativas da vida moderna. Certamente, com o advento tecnológico e científico dos últimos 50 anos e, portanto, com o avanço dos conhecimentos, a percepção de liberdade pode ser ainda maior em virtude dos incontáveis recursos que o mundo moderno nos oferece.
A despeito dessa compreensão de liberdade, particularmente, na contemporaneidade, Espinosa (1632-1677), filósofo holandês, já no século XVII, questionava-se porque o ser humano, mesmo mergulhado na servidão, imaginava-se livre. A considerar que nos tempos atuais há muitas nações aviltadas por realidades menos promissoras, mais anatematizadas e oprimidas, normalmente oriundas de operações políticas monocráticas, a indagação do pensador da Holanda é mais atual do que nunca. As proposições espinosistas consideram a superstição religiosa, a credulidade das massas, a razão cega, a ignorância, os dogmas e, maiormente, a nossa característica humana de sermos movidos pelos desejos e paixões como premissas que nos levam a acreditar que somos livres. Ademais, como somos ininterruptamente constrangidos pelas forças externas, a conquista da liberdade, pelo viés espinosista, pode ser uma grande ilusão e, então, um desafio.
À luz da proposição filosófica de Espinosa, somos somente livres quando agimos de acordo com nossa natureza sem sermos coagidos por absolutamente nada, tampouco alguém. Os recentes episódios de intolerância étnica e religiosa, violência à comunidade LGBTQI+, feminicídio, atos de crueldade racista, negligência com os povos indígenas, trabalho análogo à escravidão em vinícolas e fazendas, dentre outras práticas deliberadas à revelia dos desejos alheios, retratam atitudes que limitam modos de ser, agir, desejar e viver. Por mais que, porventura, não façamos parte desses grupos, para além da suposta liberdade, estamos, na verdade, saturados pelas ameaças dos desencantos, pela inibição da nossa capacidade criativa e pelo esfacelamento da nossa potência de viver, como diria Espinosa. De alguma forma, somos afetados pelos sofrimentos dessas pessoas. Na contramão, o pensador da terra das majestosas e elegantes tulipas entende que os mecanismos de reflexão sobre as causas do que nos afetam podem ser o caminho para a conquista da liberdade plena, considerando a nossa essência como elementos da natureza, na sua totalidade. Como tal, todo e qualquer modo de pensar, agir, ser, viver e desejar, que aflorar ao longo da nossa existência, é legítimo e, destarte, deve ser respeitado e reconhecido.
Dado o fato que os encontros com outras pessoas e objetos são contínuos, e que somos profundamente afetados por esse movimento, a liberdade começa a se desenhar no horizonte quando entendermos essa dinâmica inexorável por sermos parte da natureza. Também é preciso conhecermos os efeitos desses agrupamentos de corpos de modo a sermos produtores pela capacidade de conhecer. Dito de outra forma, apenas o conhecimento, que é construído pelas afetações dos corpos e pelas nossas paixões, é o eixo guia para o pleno exercício da condição de ser plenamente livre.
Aprende-se, assim, que ser livre é conhecer as causas e ter ideias claras e distintas do que nos impacta. Absortos pelas paixões sem devidamente compreendê-las, estamos, na verdade, submersos na servidão. Frente aos episódios demiúrgicos e silenciadores, em pleno século XXI, derivados de execuções políticas monocráticas e ultraconservadoras, talvez seja mais prudente e racional redimensionar a nossa sensação de liberdade.
Os cabelos ao vento em cima de uma motoca podem até nos dar a impressão de sermos livres, mas a discussão acima nos oferece uma reflexão mais profunda sobre a nossa condição de liberdade e, por conseguinte, a situação do nosso viço de viver. Mais que ser livres, talvez “liberte-se” faça mais sentido para estarmos à espreita do que e de quem pode limitar, silenciar e reprimir a nossa potência de ser, agir, desejar e pensar do jeito que quisermos, sem a imposição ou o julgamento de outrem.
