Opinião

Somos tão evoluídos como o mundo moderno?

A involução do pensamento, à primeira vista, moderno, é deliberada e espraiada pelos mais distantes recônditos do mundo.

Francisco Estefogo
15/06/23 às 18h00

Viagens turísticas ao espaço. Inteligência artificial. Comunicação global instantânea. Internet 5G (6G chega até 2030!). Computação quântica. Meios de transporte autônomos. Cirurgia robótica assistida. Esses são apenas alguns dos formidáveis saltos tecnológicos da civilização ocorridos nos últimos 50 anos. A considerar todo empenho, estudo, pesquisa, engajamento e investimento feito para que esses progressos façam parte do nosso dia a dia, é possível imaginar, ao longo de todo percurso do desenvolvimento do processo dessa tecnologia, as mentes brilhantes e evoluídas que estavam envolvidas nesses projetos. Indubitavelmente, no decorrer da concepção, elaboração e produção desses artefatos de última geração, os pesquisadores, os cientistas e os executores, dentre outros implicados, também tiveram oportunidades ímpares para, a rigor, expandir as formas de pensar e conceber o mundo. Numa conta simples, talvez possa se supor que como o século XXI está evoluidíssimo, no que tange aos modos de viver referentes à saúde, à comunicação, à locomoção, ao entretenimento e afins, igualmente a população da contemporaneidade está no mesmo nível de progressão, afinal, foram eles que otimizaram e viabilizaram a tecnologia hodierna... Só que não, pois, além de pouquíssimos terem acesso a essas soluções vanguardistas, o retrocesso de algumas mentes é latente, com consequências nefastas de casos de opressão, silenciamento, controle, intolerância, subordinação, racismo, servidão, exclusão social e, em alguns casos mais extremos, morte.

A involução do pensamento, à primeira vista, moderno, é deliberada e espraiada pelos mais distantes recônditos do mundo. Recentemente, por exemplo, Viktor Orban, governo ultraconservador húngaro, impetrou no Parlamento uma emenda legal para receber denúncias anônimas contra quem questionasse sua concepção pessoal em relação ao matrimônio, à constituição da família e às questões de orientação sexual e de identidade de gênero. Além disso, no Rio de Janeiro, mais particularmente na baixada fluminense, um motorista de aplicativo recusou levar duas mulheres e duas crianças, de 8 e 13 anos, para um terreiro de candomblé. Como as passageiras estavam vestidas com roupas de santo, elas foram intimadas a saírem do carro. Ademais, o parlamento da Uganda, frente à espartana pressão de Museveni, atual presidente, no poder desde 1986, aprovou um novo projeto de lei, com regras draconianas, que ataca a comunidade LGBTQI+. Pena de morte para certos atos entre as pessoas do mesmo sexo e ordem de prisão de 20 anos por incitar a homossexualidade são algumas das regras. Essas regressões afora, devido ao maciço boicote dos consumidores, uma fabricante conhecida de cerveja, encurralada, tirou uma campanha publicitária do ar porque uma celebridade digital transgênero estampou sua imagem nas latinhas da bebida.

Contrapondo o que foi dito no início desta coluna, esses são apenas alguns dos episódios, transcorridos nos últimos tempos, que retratam atitudes anacrônicas em comparação com o que algumas mentes brilhantemente já inventaram e produziram. Ressalta-se que a perseguição religiosa remonta antes do fim do Império Romano, nos idos de 476 d.C., e que a homossexualidade acompanha a história desde os primórdios, pois há registro desse tipo de comportamento sexual até mesmo entre os povos selvagens. É um paradoxo conceber mentes que evoluíram tanto nesse percurso da humanidade, e outras que são desmedidamente fossilizadas. Nesse sentido, Nietzche (1844-1900), filósofo alemão, faz um alerta aos desavisados: “a serpente que não pode mudar de pele deve morrer. Assim como as mentes que são impedidas de mudar de opinião; elas deixam de ser mentes”.

Decerto, a conceber o tempo como compositor dos destinos, sobreleva trazer a lume que algumas certezas, para o desalento dos convictos, preconceituosos e retrógrados, envelhecem rapidamente, assim como os artefatos tecnológicos. A cada dia há uma nova descoberta. Destarte, como Montaigne (1533-1592), filósofo renascentista e escritor erudito francês, acreditava, é absolutamente premente e atual questionar nossas crenças para analisarmos nossas motivações e emoções de modo que possamos nos compreender mais profundamente, neste mundo multifacetado e atravessado por inúmeras – e legítimas - maneiras de ser e viver.

Embora ainda haja mentes primitivas (nunca deixarão de existir!), incompatíveis com alguns dos iluminados e criativos intelectos do mundo vigente, altamente tecnológico, o que nos consola é ler Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista brasileira nascida na Ucrânia, representante de um lócus de inspiração, resistência e potência para renovar a nossa constante evolução e, por conseguinte, continuar no meio dos ultrapassados e extemporâneos. A romancista, considerada uma das escritoras mais importantes do século XX, acalenta-nos ao entoar: “sejamos como a primavera, que renasce cada dia mais bela, exatamente porque nunca são as mesmas flores”. Parece que nem todos nós temos flores no jardim, tampouco percebemos quando a primavera se avizinha.

“Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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