Opinião

Traída pela memória

"Ajoelhava pedindo aos céus, como se algum anjo descesse para ajudar a procurar"

Carmen Silvia da Costa - Hojemais Araçatuba
21/07/19 às 15h30

“Onde estão os meus óculos?” Era a pergunta que soava entre as paredes da casa.
Ajoelhava pedindo aos céus, como se algum anjo descesse para ajudar a procurar. Abria gavetas, fechava gavetas e para adiantar, tateando, achava o pente. Ao passa-lo sobre os cabelos, encontrava os óculos.

Parecia que as coisas brincavam com ela de esconde–esconde. Quando não era a chave, era a identidade.

Podia não saber onde estava tudo, menos os óculos que lhe faziam tanta falta. Inclusive para poder encontrar as outras coisas perdidas e esquecidas. E o folheto da conta de luz? A fatura do cartão de crédito? Último dia para pagar, ficara três dias para encontrar. Pagou tudo com juros e multas. Ninguém ficou sabendo.
Onde guardar o dinheiro, era outro dilema...

Mas o que a deixava mais triste e preocupada, eram as críticas e os comentários da família.

- Qualquer dia ela coloca fogo na casa; o que já quase aconteceu, a panela chegou a entortar e tamanhas labaredas de assustar a vizinhança.

- Não saia de perto do fogão quando estiver cozinhando, aconselhava uma das irmãs.

Sugeriram fazer palavras cruzadas, caça palavras. Ela não tinha paciência para esses passatempos. Montar quebra cabeças, recordar matemática, eram outras opções a aderir para ajudar a sua memória. Esquecia até o nome dos personagens da novela ou do filme que acabara de assistir. Para tal detalhe recorria às crianças que estavam por perto. Elas respondiam, sem dar-lhe muita atenção.

“Onde vão tudo isso Senhor Jesus? Temos o consciente, o subconsciente e o id. Demora tanto para funcionar”, ela questionava sozinha com seus pensamentos. A pergunta “Quem viu?” já era uma constante no seu dia.

“Quem viu meu remédio de pressão?” Ninguém mais fazia caso de seus sumiços. Sem o remédio, a pressão era problema e todos da casa se prontificavam a procurar. Toleravam ainda a falta da memória, mas pressão alta, não. Teriam que correr com ela pra o médico.

 

Carmem Sílvia da Costa é membro do Grupo Experimental da AAL (Academia Araçatubense de Letras).

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