Opinião

Trauma vicário: o cuidar do cuidador

Fenômeno psicológico também é conhecido por “fadiga da compaixão”

Julio Cesar Santos Ribeiro*
15/10/19 às 09h30

Imagine a cena: no consultório, uma adolescente de 17 anos revela que todas as noites, desde os seus 8 anos, é violentada sexualmente pelo seu pai... Ou então, em uma cidade devastada por bombas e ataques aéreos, eis que o cinegrafista se depara com o que antes era uma criança, sendo agora apenas partes desta...

Trauma vicário se apresenta como uma condição psicossomática causada em pessoas que lidam/se deparam com vítimas de traumas ou, no caso de jornalistas, em eventos traumáticos.

Também conhecido por “fadiga da compaixão”, esse fenômeno psicológico caracteriza-se por um ETS (Estresse Traumático Secundário) que, a partir do DSM – V (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª edição - em inglês), convergiu ao TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático).

Desencadeando em crises de estresse, ansiedade, re-experiência do evento traumático, dentre outros, o trauma vicário acomete no cuidador (psicólogos, médicos) ou pessoas que se envolveram com a situação traumática (jornalistas, bombeiros) toda uma sintomatologia capaz de afastá-los das suas funções laborais.

Não só em profissionais, o trauma vicário pode ser desenvolvido também por pessoas que presenciaram, sobreviveram ou tiveram conhecimento de eventos traumáticos e, por tal motivo, se impactaram diante o ocorrido (no Brasil, cita-se como exemplo os vizinhos da escola em Suzano que foi palco de tiroteio, homicídios e suicídios em março de 2019).

Em tempo de Prevenção ao Suicídio (“Campanha Setembro Amarelo”), olhar com afago e lisura para os profissionais que se dedicam ao cuidar do sofrimento do outro torna-se necessário a fim de resguardar a prática desses humanos. Dessa forma, mudanças cognitivas (pensamentos de desesperança ou fuga), emocionais (altos níveis de irritabilidade/intranquilidade) ou comportamentais (falta de vontades) precisam ser investigadas a luz dessa enfermidade para que o tratamento (agora também para o cuidador-ferido) possa ser eficaz na busca por amenizar eventuais danos psíquicos.

De modo geral, seja o profissional que lida com o sofrimento do trauma alheio como aquele que sofre pela experiência marcante, torna-se imprescindível buscar apoio especializado no objetivo de desenvolver estratégias assertivas de ressignificação e enfrentamento ao fato.

(Foto: Arquivo pessoal)

 

* Julio Cesar Santos Ribeiro é psicólogo clínico, docente em psicologia e membro do CVV. É também credenciado pelo Conselho Federal de Psicologia a realizar atendimento on-line.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.