Na vida, quando se pensa que já se viu ou ouviu de tudo, engana-se. Para o bem ou para o mal, surgem novidades. Lamentável e talvez criminoso o discurso de um vereador de Caxias do Sul
(RS), cujo nome declino em mencionar, dirigido contra trabalhadores baianos em vinícolas daquele estado.
A fala do edil consistiu num misto de mediocridade, interesse e arrogância. O móvel do discurso, revestido de retórica e imbecilidade, foi o fato de 200 funcionários de empresas
contratadas por vinícolas daquela região e Estado serem resgatados de alojamentos, onde eram submetidos à condição análoga à escravidão.
Os trabalhadores são vítimas dos empregadores, que praticaram, em tese, o crime previsto no artigo 149, do Código Penal, de reduzir alguém a condição análoga a de escravo. O vereador envolvido, “navegando contra a maré”, usou a tribuna da Câmara de Vereadores de Caxias de Sul, num discurso político, para tentar “fazer a defesa” dos empregadores.
No afã de defender o indefensável, proferiu frases como: “não contratem mais aquela gente lá de cima”, referindo-se aos trabalhadores baianos, ou “a única cultura que os baianos têm é viver na praia tocando o tambor”.
O vernáculo talvez precise de neologismo para definir a atitude desse vereador ... Falando de coisa boa, na Bahia, quem não é primo é vizinho ou conhecido. O bom humor e a fé do baiano são contagiantes. O turismo é promissor e o povo é trabalhador.
A Bahia sob um olhar cultural é uma nação, com costumes e sotaques singulares. A Bahia é o berço da cultura popular brasileira, reconhecida mundialmente. O jeito de ser do baiano é
cativante, dócil e sensualizado. A Baianidade contagia.
Rui Barbosa, considerado o pai do Direito no Brasil, era baiano. Jorge Amado, Castro Alves, Dorival Caymmi, Raul Seixas, João Gilberto, Milton Santos e Moraes Moreira eram baianos. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivete Sangalo e Daniela Mercury são baianos. O povo baiano merece respeito.
Nesse infeliz contexto, parafraseando Mark Tawin: “Nenhuma quantidade de evidência irá persuadir um idiota”. Enfim, o discurso xenofóbico desse vereador ofendeu não só aos trabalhadores vitimados e sofridos (que comumente deixam suas famílias para trabalhar fora), como também ao povo da Bahia, ao povo do Brasil, à ética, à cultura e à literatura nacional.
Ofendeu ele, em especial, à Baianidade. Fico imaginando o texto que Rui Barbosa produziria sobre um episódio como esse ...
