Opinião

Você consegue voltar para a sua vida?

"O cansaço também comunica. E merece ser escutado"

Jean Oliveira
24/09/26 às 14h20

O expediente acaba. Você fecha o computador, sai do trabalho, chega em casa. Mas, por dentro, continua lá.

Revê a cobrança do chefe. Ensaia respostas para uma conversa que já terminou. Confere o grupo de mensagens durante o jantar. Alguém conta como foi o dia, e você percebe que escutou apenas pela metade. O relógio marcou o fim do expediente; a sua atenção, não.

Isso não é apenas uma questão de produtividade. É uma pergunta sobre a vida que sobra quando o trabalho ocupa todos os espaços. Segundo reportagem da Você RH sobre pesquisa da Aon e da TELUS Health, 45% dos trabalhadores brasileiros entrevistados relatam sobrecarga e estresse constante — acima da média regional, de 34%.

O desgaste nem sempre chega como um grande colapso. Às vezes, aparece na impaciência com uma pergunta simples. No convite que você recusa porque até conversar parece trabalhoso. No domingo que deixa de ser domingo porque a segunda-feira já começou dentro da sua cabeça.

Uma situação isolada não define um transtorno. Mas, quando esses sinais se repetem e passam a organizar a rotina, não convém tratá-los como o preço inevitável de ser responsável. O cansaço também comunica. E merece ser escutado.

As psicólogas Sabine Sonnentag e Charlotte Fritz estudaram a recuperação do estresse profissional e destacaram a importância do desligamento psicológico: conseguir se afastar das tarefas e dos pensamentos de trabalho durante o tempo livre. Pesquisas associam a dificuldade de se desligar a maior desgaste e pior bem-estar. Em outras palavras: fechar o computador não garante que você tenha saído do trabalho.

Às vezes, você continua conectado porque tem medo de perder o emprego. Às vezes, porque aprendeu a medir o próprio valor pelo quanto consegue resolver. A pendência que ficou para amanhã vira, então, uma acusação: “Você não fez o suficiente.” E o descanso passa a parecer um prêmio que precisa ser merecido — embora a lista de tarefas nunca termine.

Mas é importante dizer com clareza: nem todo problema de descanso se resolve com uma técnica individual. Equipes reduzidas, prioridades confusas e mensagens fora de hora também produzem esgotamento. Quem depende daquele salário nem sempre pode simplesmente dizer “não”. Falar de autocuidado sem falar das condições de trabalho é oferecer uma solução incompleta.

Ainda assim, dentro da margem que existe, você pode começar por um gesto concreto: ao encerrar o dia, anote o que ficou pendente e qual será o primeiro passo quando voltar. Não para trabalhar mais um pouco — para não precisar carregar tudo na memória durante a noite. Se houver abertura, converse com a liderança sobre prioridades: o que precisa ser feito primeiro e o que pode esperar? Se tudo é urgente, alguém precisa decidir o que realmente importa.

E faça a si mesmo uma pergunta sem pressa: o que o cansaço está me impedindo de viver? Talvez a resposta aponte para um compromisso que pode ser revisto, uma conversa que precisa acontecer, apoio que está faltando ou condições que se tornaram insustentáveis. Se o sofrimento persiste e interfere na vida cotidiana, buscar cuidado profissional também é uma forma de agir — não de fracassar.

A mudança talvez não comece com uma grande decisão. Pode começar quando você termina uma refeição sem conferir mensagens. Quando acompanha uma história até o fim. Quando aceita um convite e consegue estar presente. Pequenos momentos não resolvem, sozinhos, problemas estruturais; mas podem lembrar você do que está tentando proteger.

O trabalho importa. Mas ele não pode ser a medida de toda a sua existência. Você não precisa esperar o esgotamento para reivindicar o direito de descansar. Há uma vida acontecendo depois do expediente — e você merece ter condições de participar dela.

Foto: Divulgação

Jean Oliveira é psicólogo e jornalista

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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