Política

Prefeitura propõe subsídio de quase R$ 1 milhão para transporte público

Projeto foi apresentado pelo secretário de Mobilidade Urbana, coronel Marcelo Reis, durante sabatina na Câmara de Vereadores de Araçatuba

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
10/05/22 às 17h15
De acordo com secretário Marcelo Reis, ideia é conceder subsídio por seis meses e ter o suporte da Fipe para uma solução definitiva (Foto: Angelo Cardoso/Câmara de Araçatuba)

A Prefeitura de Araçatuba (SP) propõe um subsídio de quase R$ 1 milhão para resolver temporariamente os problemas do transporte coletivo urbano no município. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (9), pelo secretário de Mobilidade Urbana, coronel Marcelo Reis, durante sabatina na Câmara de Vereadores. Outra medida em andamento é um estudo técnico, no mesmo período do subsídio, para uma solução definitiva.

Conforme dados apresentados pelo secretário, a proposta do Executivo é conceder um subsídio mensal de R$ 164 mil durante seis meses, o que totalizará R$ 985.920,00.

Em contrapartida, a empresa deverá manter o serviço prestado, oferecendo o transporte com qualidade aos usuários, e retornará a operação noturna (até as 23h20), de segunda a sexta-feira. Três linhas funcionarão em conjunto por ter bairros próximos (Porto Real e São José; Claudionor Cinti e Lago Azul; e Taveira e Verde Parque).

Para se chegar ao valor do subsídio, segundo o secretário, foi feito um estudo com base na planilha Geipot, que é usada pelo governo federal para cálculo do custo do transporte público. Pela ferramenta, o custo real do transporte de passageiro em Araçatuba, chamado de tarifa técnica, é de R$ 7,08 (dados de março deste ano). No entanto, a tarifa paga pelo usuário atualmente é de R$ 5,00, ou seja, seria necessário o município complementar os R$ 2,08 (29,37%).

Os cálculos foram feitos com base nos passageiros pagantes, excluindo as gratuidades. “Quem paga a gratuidade é o usuário pagante”, afirmou o coronel Marcelo Reis, citando que em municípios como Bauru, o custo da gratuidade de idosos entre 60 e 65 anos e do passe escolar, benefícios impostos por leis municipais, é subsidiado pela Prefeitura.

Ele também citou que está em andamento um subsídio federal para o transporte público por três anos para garantir a gratuidade no transporte público urbano para idosos acima de 65 anos a partir de repasses de recursos federais. O projeto já passou pelo Senado e está na Câmara, já que o problema do transporte tem afetado todo o País.

Estudos

Outra proposta do Executivo para Araçatuba é a contratação da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) para estudo técnico durante o período de concessão do subsídio para a resolução definitiva do problema e equilíbrio financeiro do contrato assim como ocorreu em outros municípios, como Registro e Campinas (ambos em São Paulo), Maringá e Ponta Grossa (PR) e Joinvile (SC).

O secretário afirma que o subsídio tem previsão legal, pela nova lei de diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana e Lei de Concessões Públicas. “Hoje o transporte público não se paga mais com a tarifa do usuário. Nas principais cidades europeias o transporte público de qualidade é subsidiado, tendo que estabelecer metas de qualidade e outras exigências na prestação do serviço”, comparou.

Reis também apresentou números que “excluem” a possibilidade de rompimento do contrato com a TUA (Transportes Urbanos Araçatuba) para a contratação de outra empresa de forma emergencial por ser mais oneroso.

Comparando com o que foi feito em Presidente Prudente, onde a concessionária abandonou o contrato durante a pandemia e foi feita contratação emergencial, Araçatuba teria que desembolsar R$ 610 mil por mês, sendo o valor gasto em seis meses de R$ 3,6 milhões.

Em Birigui, o contrato emergencial é de até R$ 166 mil por mês (média de R$ 110 mil efetivamente pagos sobre a venda de bilhetes). No entanto, a empresa, segundo o secretário, oferece apenas dois ônibus e três micro-ônibus.

Histórico

A concessão do transporte urbano de Araçatuba teve início em agosto de 2018, com vigência de dez anos, prorrogável por mais dez (cinco mais cinco).

O contrato previa a oferta de 23 linhas, 36 ônibus/micro-ônibus e atendimento diário das 5h50 às 23h20. O tempo máximo de espera deveria ser de 30 minutos nos horários de pico (6h às 9h; 11h30 às 13h30; 17h às 19h, de segunda a sexta, e sábados das 6h às 9h e das 11h30 às 14h) e de 60 minutos fora dos horários de pico.

Durante a pandemia foram feitos ajustes no plano de operação da empresa para que o serviço não parasse. A partir de 18 de março de 2020, a empresa passou a operar apenas de segunda a sexta, das 5h50 às 19h20; e sábados das 5h50 às 14h20. O transporte foi suspenso aos domingos e feriados. O intervalo dos ônibus nas linhas passou para 60 minutos. Em outubro do ano passado, teve início o chamado “cirandão”, com apenas dois ônibus à noite para atender demandas existentes.

Devido a essas alterações, a concessionária foi notificada pelo município a apresentar novo plano operacional, visando a normalização das linhas, dias e horários conforme contrato de concessão. No entanto, a empresa alega impossibilidade de retomada integral do serviço concedido.

Foi instaurado um processo sancionatório e criada uma comissão para análise da defesa da empresa. Ao final do processo, diante de todos os números apresentados, a comissão opinou pela não aplicação de sanção e sugeriu um estudo para subsídio.

Reajuste da tarifa não cobre a queda na receita

De 2019 até abril deste ano, houve um reajuste de 37% no valor da tarifa da passagem da TUA, passando de R$ 3,65 (2019) para R$ 5,00 (2022). O valor considera a variação do óleo diesel, rodagem, veículo, mão de obra e outras despesas. Um dos custos que mais impacta nessa conta é o valor do combustível, cujo aumento é de 116,77% no período. Só neste ano, o óleo diesel teve alta de 47% nas refinarias.

Por outro lado, a média mensal de passageiros que utiliza o transporte público teve redução de 48%, saindo de 254.197 (2019) para 131.258 (2022). A receita tarifária recuou em 46,34% no mesmo período, fechando 2021 em R$ 3,4 milhões - R$ 288 mil mensais.

Os números estão bem distantes das estimativas de faturamento feitas no edital de concessão, que estimava R$ 9,4 milhões em 2019, primeiro ano da concessão, e R$ 9,9 milhões para 2022.

“Antes da pandemia já havia uma queda de demanda, motivada pela perda de passageiros para outros serviços, como o aumento no uso de motocicletas, serviços de mototáxi, transporte por aplicativo e, mais atualmente, os patinetes e bicicletas motorizadas”, disse o secretário de Mobilidade Urbana, Marcelo Reis.

A tarifa atual é de R$ 5,00 (passe comum), R$ 4,55 (bilhete eletrônico, incluindo a integração; e vale-transporte), R$ 4,10 (empregada doméstica) e R$ 2,50 (passe escolar).

(Foto: Angelo Cardoso/Câmara de Araçatuba)

Questionamentos

Após a apresentação dos números, foi aberto espaço para questionamento dos vereadores. Uma das questões levantadas pelo vereador Nelson Marques Filho, o Nelsinho Bombeiro (PV), foi sobre problemas jurídicos que possam impedir o recebimento de subsídios.

No ano passado, foi aprovado um subsídio de R$ 350 mil, porém a empresa não conseguiu receber a totalidade por problemas trabalhistas. Segundo Reis, houve duas penhoras. Uma resultou em acordo e outra, no valor de R$ 132 mil, ainda aguarda decisão, porém o valor não foi para o credor.

Por isso, segundo o secretário, o projeto de lei que será enviado à Câmara deixará especificado que o dinheiro é para combustível, manutenção e despesa com pessoal, para que a situação não se repita.

Arlindo Araújo (MSB) questionou sobre o lucro da empresa, já que a Prefeitura teve acesso a tantos dados da concessionária, e o custo do estudo da Fipe. Segundo Reis, a empresa não está dando lucro, mas trabalhando no prejuízo há vários meses. Sobre o custo do estudo, a Prefeitura fez pedido de orçamento para a Fipe, mas ainda não teve resposta. O único dado informado foi que o contrato do município de Registro foi de R$ 230 mil.

Lucas Zanatta (PL) cobrou um plano efetivo, com a garantia de que nesse período de seis meses o problema terá uma solução, e Luís Boatto (MDB) pediu acesso aos documentos enviados pela empresa à Prefeitura, após fazer críticas quanto ao serviço oferecido, como atrasos e condições dos veículos. Para Boatto, a contrapartida da empresa é irrisória quando comparado ao valor do subsídio, pois não prevê nem o cumprimento do que já estava estabelecido em contrato.

Domingos

Os vereadores Maurício Rufino Barbosa, o Maurício Bem Estar (PP) e Wesley Monea dos Santos, o Wesley da Dialogue (Podemos), ambos da comissão especial responsável por realizar estudos e discussões referentes à situação do transporte público no município, mostraram preocupação com a falta do serviço aos domingos e o tempo de espera de uma hora, contrariando o previsto em contrato, que seria de 30 minutos nos horários de pico.

Segundo Reis, se houver aumento da demanda de passageiros, essas condições podem ser colocadas pela empresa.

Veja vídeo com a sessão completa:

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