O avanço do fenômeno
El Niño
deve trazer reflexos para o clima de Mato Grosso do Sul nos próximos meses. Em entrevista exclusiva ao Hojemais Três Lagoas, o geógrafo
Diego da Silva Borges,
mestre em Geografia, professor e doutorando em Geografia pela UFMS, explicou como o fenômeno se forma e o que a população pode esperar para a região.
O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Segundo Borges, sua ocorrência não segue um calendário fixo e pode acontecer em intervalos de aproximadamente dois a sete anos.
O fenômeno ocorre quando os ventos alísios, que normalmente deslocam águas superficiais do Pacífico em direção à Ásia e à Oceania, enfraquecem. Com isso, as águas mais quentes permanecem próximas à região do Pacífico Equatorial e alteram a dinâmica entre oceano e atmosfera.
Essa mudança pode interferir na circulação atmosférica e modificar padrões de temperatura, umidade e chuva em diferentes partes do mundo.
Geógrafo Diego da Silva Borges. (Foto: Arquivo Pessoal)
Calor e chuva irregular em MS
Para Mato Grosso do Sul, Borges explica que uma das principais características esperadas é a elevação das temperaturas, com possibilidade de ondas de calor e irregularidade na distribuição das chuvas.
Dados divulgados pelo
Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)
apontam que partes de Mato Grosso do Sul podem registrar volumes de chuva acima da média histórica entre setembro e novembro. Ao mesmo tempo, as temperaturas devem permanecer acima da média em praticamente todo o país.
Em Três Lagoas, o cenário pode significar períodos de calor intenso intercalados com episódios de chuva, inclusive com possibilidade de tempestades durante mudanças bruscas nas condições atmosféricas.
“Podemos esperar por temperaturas elevadas, ondas de calor e chuvas irregulares para o período, podendo haver tempestades nas trocas entre dias muito quentes para chuvosos”, explicou o geógrafo.
O especialista ressalta que temperaturas acima da média não significam que não haverá dias frios. A passagem de massas de ar frio ainda pode provocar quedas bruscas nas temperaturas.
(Foto: Divulgação)
Chuva pode vir concentrada
Outro ponto de atenção é a distribuição das precipitações. Segundo Borges, períodos com maior possibilidade de chuva não significam necessariamente que ela ocorrerá de maneira regular.
“Grandes volumes de chuva em pouco tempo podem resultar em alagamentos, enxurradas, dentre outros problemas urbanos provenientes da falta de espaço para o escoamento e infiltração adequada da água”, afirmou.
O cenário também pode afetar setores da economia local. Na agricultura, alterações nas temperaturas e no regime de chuvas podem interferir no calendário de plantio, na disponibilidade de água no solo e na colheita.
Na produção de celulose, Borges destaca que períodos prolongados de calor e estiagem podem favorecer condições para queimadas e aumentar a ocorrência de pragas, embora ressalte que essa não seja sua área específica de pesquisa.
De acordo com o Inmet, setembro, outubro e novembro estão entre os meses que exigem maior atenção em relação ao fenômeno. A projeção divulgada pelo órgão, com base em previsões do CPC/NOAA, aponta mais de 90% de probabilidade de que o trimestre registre um El Niño muito forte.
Borges orienta que a população acompanhe os alertas oficiais da Defesa Civil, principalmente diante da possibilidade de
ondas de calor,
baixa umidade, ventos fortes e tempestades.
“Não devemos nos desesperar ou entrar em pânico frente a situações previstas, mas estar atentos às recomendações das autoridades competentes e dos especialistas”, orientou.
Para o geógrafo, cuidados básicos também ganham importância durante períodos de calor, como manter a hidratação e evitar atividades físicas nos horários de maior intensidade do sol.
A intensidade do fenômeno, porém, não significa que todos os efeitos serão necessariamente mais severos. O próprio Inmet ressalta que eventos de El Niño mais intensos aumentam a probabilidade de impactos, mas não determinam automaticamente que eles serão mais graves.
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