Mato Grosso do Sul ocupa o primeiro lugar no ranking nacional de maus-tratos contra crianças e adolescentes de até 17 anos. A informação consta no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública , divulgado nesta quinta-feira (24), e reforça o alerta sobre a violência infantojuvenil no Estado, três anos após a morte de Sophia Ocampo , caso que mobilizou o país e motivou a promessa da criação de um centro especializado de atendimento às vítimas.
De acordo com o levantamento, em 2025 foram registradas 1.593 ocorrências de maus-tratos em Mato Grosso do Sul, o equivalente a uma taxa de 206,5 casos para cada 100 mil crianças e adolescentes . O índice é quase três vezes superior à média nacional, que ficou em 77,4 casos por 100 mil habitantes da mesma faixa etária.
No ranking nacional, Mato Grosso do Sul aparece à frente de Rondônia (197,3) , Amapá (187,6) , Sergipe (164,9) e Santa Catarina (160,7) . Em todo o Brasil, foram contabilizados 38.986 registros de maus-tratos durante o ano passado.
O anuário revela que grande parte das agressões ocorre dentro do ambiente familiar, mas também há casos registrados em espaços públicos. Em comparação com 2024, os registros cresceram 14,6% . Na comparação com 2021, o número mais que dobrou.
Outro dado apresentado pelo estudo mostra que os casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica aumentaram 5,5% no último ano e acumulam crescimento de 15% nos últimos cinco anos.
Crianças pequenas concentram maior número de casos
Os dados apontam diferenças importantes conforme a idade das vítimas. As maiores taxas de maus-tratos concentram-se entre crianças de 5 a 9 anos , faixa etária que apresenta o maior índice do país, com 95,5 casos por 100 mil habitantes .
Os indicadores permanecem elevados entre crianças de 0 a 13 anos e diminuem durante a adolescência.
Já os registros de lesão corporal decorrente de violência doméstica seguem comportamento inverso, aumentando conforme a idade das vítimas e alcançando a maior incidência entre adolescentes de 14 a 17 anos , com taxa de 104 casos por 100 mil habitantes .
As menores taxas do país foram registradas nos estados do Ceará, Rio de Janeiro, Maranhão, Amazonas, Pernambuco e Minas Gerais .
Casos investigados em 2026
Ao longo deste ano, diversos episódios de suspeita de maus-tratos contra crianças foram registrados e investigados pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul .
No dia 28 de abril , um bebê de 1 ano foi internado em estado grave, em Campo Grande, apresentando diversos hematomas pelo corpo e suspeita de abuso sexual. A mãe, de 31 anos , e o padrasto, de 21 anos , foram presos.
Em 26 de maio , uma mulher de 31 anos foi presa em Nova Andradina , suspeita de agredir a filha de apenas sete meses . Segundo a investigação, a bebê sofreu fratura em uma costela e lesão no crânio.
Já em 19 de junho , outra bebê, com apenas três meses de idade , foi hospitalizada em estado grave após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Durante o atendimento médico, foram constatadas diversas lesões pelo corpo da criança. Os pais acabaram presos em flagrante por suspeita de maus-tratos.
Mais recentemente, em 16 de julho , um técnico de enfermagem de 28 anos foi preso em Campo Grande, suspeito de torturar e agredir um adolescente de 14 anos , com deficiência severa, enquanto prestava atendimento domiciliar ao jovem.
Entenda o caso
A morte da menina Sophia Ocampo , em 26 de janeiro de 2023 , tornou-se um dos casos mais emblemáticos de violência infantil em Mato Grosso do Sul e provocou uma ampla discussão sobre a rede de proteção à infância.
Sophia chegou sem vida à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Coronel Antonino , em Campo Grande. Segundo a Polícia Civil , a criança apresentava diversos hematomas pelo corpo, indicando sucessivas agressões.
As investigações revelaram que a menina havia sido atendida mais de 30 vezes na mesma unidade de saúde, sempre apresentando sinais de violência, sem que a situação fosse interrompida a tempo.
Após a apuração dos fatos, a mãe da criança, Stephanie de Jesus da Silva , e o padrasto, Christian Campoçano Leitheim , foram presos e responderam pelo crime.
O caso expôs fragilidades na rede de proteção à infância e motivou uma série de mudanças anunciadas pelo poder público estadual.
Centro prometido ainda não foi construído
Após a repercussão do caso Sophia, o Governo de Mato Grosso do Sul anunciou, em março de 2023, a criação de um Centro Especializado de Atendimento à Criança e ao Adolescente , que funcionaria junto à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) , em Campo Grande, com atendimento 24 horas.
A unidade seria construída em frente à Casa da Mulher Brasileira . No entanto, três anos depois, o terreno onde o prédio deveria ser erguido permanece vazio.
Em agosto de 2025, o secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Carlos Videira , informou que a obra seria concluída em 2026. Até o momento, porém, ainda não existe previsão para o início da construção.
Segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) , o projeto está em análise na Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) e passa por ajustes técnicos.
O futuro centro deverá ocupar uma área de 5.952 metros quadrados , formada por 13 terrenos doados pela União ao Estado em 2024, em frente à Casa da Mulher Brasileira. O investimento previsto é de R$ 10 milhões .
A construção da unidade foi um dos principais compromissos assumidos pelo poder público após a morte de Sophia, mas, até agora, permanece apenas no papel.
Com Informações: g1 MS / 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
