AO VIVO
Cultura

A língua que resiste: o reencontro dos Ofaié com sua voz ancestral

Documentário gravado em Brasilândia revela a luta de um povo pela preservação de sua identidade, por meio da língua, do artesanato e da memória coletiva

Hojemais Três Lagoas - Guta Rufino
23/04/25 às 12h01
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Um dos pilares dessa história é o professor e historiador José de Souza, conhecido como Koi. Guardião da língua, ele escreveu dicionários, livros de mitos e contos, e até o ano passado, ensinava Ofaié na escola da aldeia. Foto: Divulgação

Em uma aldeia silenciosa no interior de Brasilândia, no Mato Grosso do Sul, restam apenas três pessoas capazes de falar a língua Ofaié. Todos com mais de 60 anos. A cena é, ao mesmo tempo, delicada e urgente. Foi nesse cenário, entre conversas com professores indígenas e encontros com anciãs, que nasceu o documentário “Na Língua dos Ofaiés”. A obra mergulha fundo na ancestralidade desse povo originário e constroi, com cuidado e beleza, um registro potente de resistência cultural.

O idealizador do projeto é o três-lagoense Augusto Cezar Astos — ator, roteirista, diretor e produtor cultural com décadas de experiência nas artes cênicas e audiovisuais. Junto a ele, a professora Adriana Postigo, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), assina a produção executiva. Ela já havia realizado gravações da língua Quató e, agora, se dedica a registrar o Ofaié com o mesmo olhar sensível.

O idealizador do projeto é o três-lagoense Augusto Cezar Astos — ator, roteirista, diretor e produtor cultural com décadas de experiência nas artes cênicas e audiovisuais. Foto: Divulgação
Entre bordados e palavras, na rotina da aldeia, as mulheres bordam. Bolsas, toalhas, caminhos de mesa. Elas costuram o que restou da fauna e da flora que sempre as cercaram, combinando tinta industrial com jenipapo, cores fortes com saber antigo. Foto: Divulgação

IDENTIDADE

A equipe percorreu a aldeia para documentar não apenas a fala, mas os gestos, os silêncios e as práticas que constroem a identidade Ofaié. Um dos pilares dessa história é o professor e historiador José de Souza, conhecido como Koi. Guardião da língua, ele escreveu dicionários, livros de mitos e contos, e até o ano passado, ensinava Ofaié na escola da aldeia. Seu trabalho é, em suas palavras, "essencial para o presente e para o futuro".

Entre bordados e palavras, na rotina da aldeia, as mulheres bordam. Bolsas, toalhas, caminhos de mesa. Elas costuram o que restou da fauna e da flora que sempre as cercaram, combinando tinta industrial com jenipapo, cores fortes com saber antigo. O artesanato surge no documentário como símbolo do que se perdeu — e do que ainda pulsa. José Koi também fabrica e restaura colares, arcos e flechas, retomando tradições interrompidas pelas décadas de deslocamentos forçados que os Ofaié viveram.

José Koi também fabrica e restaura colares, arcos e flechas, retomando tradições interrompidas pelas décadas de deslocamentos forçados que os Ofaié viveram. Foto: Divulgação
m ato de registro, sim, mas também de escuta e reparação. A produção quer alcançar públicos diversos, dentro e fora do Brasil, e já articula uma nova etapa: a capacitação dos próprios Ofaié para a produção de conteúdo audiovisual. Foto: Divulgação

Silvano Moraes de Souza e Elisângela Liandes, professores e falantes da língua, também participam ativamente da produção. Ele, estudante de História na UFMS. Ela, também artesã. Dona Neusa e dona Joana, duas das últimas falantes nativas, oferecem à câmera não apenas palavras, mas memórias que carregam séculos de oralidade. O cacique Marcelo Lins relembra os caminhos de luta do povo, reforçando o legado do falecido cacique Athaíde Xehitâ-ha, Ataíde Francisco Rodrigues, que liderou o retorno dos Ofaié às suas terras.

Com a identidade em risco, o documentário traz à tona questões fundamentais sobre saúde, território e cultura. Um dos desafios enfrentados pela comunidade está na alimentação. Com a escassez de espaços para caça e pesca e o aumento do consumo de alimentos industrializados, doenças como o diabetes se tornaram mais comuns. A proximidade com a cidade alterou profundamente os hábitos alimentares e a rotina dos Ofaié, impondo um novo tipo de silêncio — o do corpo.

O artesanato surge no documentário como símbolo do que se perdeu — e do que ainda pulsa. Foto: Divulgação
Com a identidade em risco, o documentário traz à tona questões fundamentais sobre saúde, território e cultura. Foto: Divulgação

GRAVAÇÕES E EXIBIÇÕES 

As gravações já foram concluídas e, no momento, a equipe trabalha na montagem, tratamento de som e imagem. As primeiras exibições estão previstas para agosto: uma na própria aldeia, e outra no campus da UFMS em Três Lagoas. Depois disso, o filme será inscrito em festivais nacionais e internacionais, e futuramente, disponibilizado no YouTube. Há também o desejo de expandi-lo para um longa-metragem, projeto que depende de novos financiamentos.

Resgatar o que quase se perdeu. É mais do que uma obra audiovisual, na Língua dos Ofaiés eles chamariam de uma ponte entre gerações. Um ato de registro, sim, mas também de escuta e reparação. A produção quer alcançar públicos diversos, dentro e fora do Brasil, e já articula uma nova etapa: a capacitação dos próprios Ofaié para a produção de conteúdo audiovisual. A ideia é que eles possam contar suas próprias histórias — e que essas histórias não se percam mais.

“A língua é o maior patrimônio cultural de um povo e deve ser preservada a todo custo”, afirma Astos. E é exatamente isso que o documentário pretende mostrar: que enquanto houver quem fale, quem ensine e quem ouça, uma cultura pode resistir.

Para acompanhar os bastidores e novidades da produção, basta seguir o projeto no Instagram: @nalinguadosofaie.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM CULTURA
Franquia:
Três Lagoas MS
Franqueado:
Empresa Jornalística e Editora Hojemais Ltda.
01.423.143/0001-79
Editor responsável:
WESLEY MENDONÇA SRTE/SP46357
atendimento@agitta.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.