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Dia do Biólogo: vamos falar sobre queimadas?

Entrevistamos a mestre em Biologia Vegetal, Carla Cristina Cerezoli de Jesus, para nos explicar como esse ato é prejudicial

Emily Custódio - Hojemais Três Lagoas 
03/09/20 às 09h50

Para comemorar o dia do Biólogo, que é hoje (3), vamos falar sobre preservação, e neste tema lembrar que cada ato que fazemos pode refletir no meio ambiente. O profissional de biologia estuda os seres vivos, desenvolve pesquisas, inventaria a biodiversidade, além de organizar coleções biológicas, manejar recursos naturais, desenvolver atividades de educação ambiental. Dentre tantas outras funções. Por isso o Hojemais vem aqui para agradecer todo esse trabalho e pedir ajuda a esses profissionais para conscientizar toda a Cidade de Três Lagoas sobre os perigos da queimada que, infelizmente, vemos quase que diariamente em nossas ruas e noticiados aqui! 

Por isso, em nome de todos os biólogos, entrevistamos a mestre em Biologia Vegetal, Carla Cristina Cerezoli de Jesus:

Hojemais - Queimar lixos e folhas é prejudicial ao meio ambiente?

Carla Cristina Cerezoli de Jesus - Sim! Para o ambiente, para sua saúde e para o seu bolso. A Lei de Crimes Ambientais (Lei n. 9605/1998) prevê que qualquer tipo de poluição, de qualquer forma, que coloque em risco a saúde ou a segurança humana de outros animais e da flora, é crime.

Assim, colocar fogo em lixo doméstico, seja ele orgânico (como folhas) ou não, categoriza crime ambiental, por assumir um risco em potencial. Em outras palavras, quando se queima algo, você ESTÁ poluindo o ar, e PODE estar poluindo o solo e até mesmo a água, dependendo do tipo de material, e local onde a queima está sendo feita. Além disso, você assume o risco de perder o controle da queima e fazer com que ela atinja residências, matas urbanas, instalações elétricas, entre outros.

Ainda hoje, a queima de lixo doméstico é muito praticada em áreas rurais, seja pelo fato de muitos locais não terem a coleta de resíduos sólidos ou pela cultura arraigada. Em perímetro urbano, é muito comum ver fogo em folhas e outros materiais provenientes de varredura e em terrenos baldios. Todos esses casos estão previstos na lei citada como crime ambiental, são passíveis de multa e reclusão, podendo variar nos valores e no tempo de reclusão.

"Quando se queima algo, você ESTÁ poluindo o ar, e PODE estar poluindo o solo e até mesmo a água, dependendo do tipo de material, e local onde a queima está sendo feita".

Hojemais - Em Três Lagoas, o Corpo de Bombeiros é acionado diariamente para apagar fogo em terrenos baldios e pastos. No que esse tipo de queimada, próximo à área urbana, no que isso é prejudicial?

Carla Cristina Cerezoli de Jesus - Temos aqui casos distintos e que merecem ser diferenciados. Para finalidades de lei, podemos caracterizar três tipos de queimada: incêndios florestais com causa natural (raio, vegetação seca, por exemplo), em área urbana ou queimadas a céu aberto, e as previstas em lei, as queimadas controladas.

Em terreno baldio não cabe à solicitação de queimada controlada e caracteriza crime. Logo, terrenos baldios devem ser limpos de outra forma. Para os incêndios naturais, estados e municípios, geralmente, tem um plano de ação, controle e prevenção. No que se refere às queimadas controladas, vale esclarecer alguns pontos:

1º) Apenas para atividade agropastoril;

2º) Precisa de Licença ambiental, ou seja, autorização do órgão ambiental responsável (IMASUL);

3º) Fica proibida em época de estiagem e deve obedecer todos os critérios previstos na legislação vigente.

4º) Vale ressaltar aqui, a importância de consultar um profissional da área, o órgão ambiental responsável (IMASUL) e a legislação vigente. Lembrando que, algumas leis e decretos são específicos para alguns municípios. Então, além das Leis federais e estaduais, é importante acompanhar os decretos municipais. 

No que diz respeito diretamente ao perímetro urbano, podemos ressaltar: trabalho desnecessário ao Corpo de Bombeiros, resultando em gasto público, além de ocupar esses profissionais que poderiam estar prestando outro tipo de socorro, como por exemplo, acidentes de trânsito, muito comuns em áreas urbanas. Por falar em acidente de trânsito, a fumaça da queimada atrapalha a visibilidade e pode causar acidentes, além de provocar poluição do ar resultando em doenças respiratórias, queimar instalações elétricas, residências e outros estabelecimentos, como já comentado.


"No que diz respeito diretamente ao perímetro urbano, podemos ressaltar: trabalho desnecessário ao Corpo de Bombeiros, resultando em gasto público, além de ocupar esses profissionais que poderiam estar prestando outro tipo de socorro".

Hojemais - Qual a importância do Pantanal, e sua preservação, no ecossistema do Estado?

Carla Cristina Cerezoli de Jesus - É importante ressaltar que as barreiras geográficas e políticas são invenções humanas, e que para os ecossistemas naturais isso não influencia como pensamos muitas vezes. A maior parte do Pantanal está em território brasileiro (62%) e o restante na Bolívia (18%) e Paraguai (20%), então, a responsabilidade sobre a região cabe aos três países. No Brasil, a maior parte está no MS (65%) e o restante no MT.

Sua importância ecológica é a conservação e preservação da Bacia do Alto Paraguai (BAP), pela quantidade de espécies endêmicas (só existem ali), volume de água e questões político administrativo ligado aos recursos hídricos do Brasil.

Culturalmente, a região é rica em comunidades tradicionais (ribeirinhos, indígenas, quilombolas). Essas comunidades trazem a identidade da região, além de terem o conhecimento sobre a ocupação da região respeitando o regime das águas. Muito do que se sabe hoje do Pantanal, foi descoberto com a ajuda dessas comunidades que tem esse conhecimento tradicional passado geração após geração e que vem sendo catalogado em pesquisas para não se perder com o tempo. São receitas, artesanatos e até mesmo o uso de plantas medicinais e animais, que a partir desse conhecimento, podem ser estudados e convertidos em remédios e outros produtos que favorecem toda a população.

Economicamente, a região tem forte turismo que atrai pessoas do mundo inteiro, porém, é na pecuária extensiva que a região faz a diferença. Corumbá é o município com maior rebanho bovino no MS e o segundo no Brasil. A vegetação do Pantanal é rica em pastagens de espécies nativas, o que o torna propícia para a cria e recria de bovinos de corte.

Hojemais - Porque queimadas tão distantes de nós, como na Amazônia, influencia nossa vida em qualquer parte do mundo?

Carla Cristina Cerezoli de Jesus - Primeiro, devemos considerar a velha frase: nada se cria tudo se transforma!

Em segundo, devemos refletir que o nosso planeta é um sistema fechado, então, as “coisas” continuam circulando por aqui, mesmo quando não as vemos, como por exemplo, fumaça, gases e microrganismos.

Apesar de a Amazônia estar a quilômetros de distância do nosso Estado, ela influencia diretamente a umidade da nossa região. Associada ao Oceano Atlântico, de onde recebe massas de ar, e a Cordilheira dos Andes, que funciona como uma barreira, a floresta condensa gotículas de água proveniente da evapotranspiração das plantas e forma gigantescas massas úmidas que são dispersas para várias regiões do Brasil e também da América Latina. Esse fenômeno é chamado de “rios voadores” e o que faz com eles se espalhem para nossa região são os ventos alísios.

A maior parte da chuva da nossa região é formada na Amazônia, e trazida para cá por um fenômeno chamado de “rios voadores” que recebe uma ajudinha dos ventos alísios, que por sua vez, é outro fenômeno, um fenômeno cíclico! Em outras palavras, seria um ciclo onde a umidade formada na Amazônia, pela evapotranspiração da floresta (perda de água do solo ou pela transpiração das plantas), condensa essas gotículas de água que formam as nuvens e são dispersas com a ajuda do tal vento. Sem árvores, não tem evapotranspiração para formar as nuvens e a maior parte da chuva que temos por aqui deixa de existir. Por outro lado, se os ventos alísios nos trazem chuva, ele pode trazer pode partes da coluna de fumaça, ou resquícios dela.

Uma vez entendido a influência da floresta Amazônica há tantos quilômetros de distância, vamos pensar mais diretamente em nosso dia a dia. Está calor, abafado, empoeirado... não chove! É uma reação em cadeia. Eu gasto mais energia: ventilador, ar condicionado, banhos, mais gelo paro meu tereré; eu posso ficar doente com mais frequência: doenças respiratórias (pela fumaça, ou pela poeira), dengue e cia ltda. (o calor contribui para a infestação de insetos, muitos insetos são vetores de doenças); queimou, desmatou e não choveu: a agricultura e a pecuária também ficam prejudicadas. Se o proprietário rural precisa gastar com irrigação ou insumos para sua lavoura, se o açude do pecuarista seca, minha refeição fica mais cara; queimou ou desmatou, os animais perderam sua casa e alimento: muitos morrem, outros vêm para cidade. A gente acha linda a capivara atravessando na faixa de pedestre, ou ao final da tarde ter araras barulhentas no quintal. Mas ainda assim, são animais silvestres e a gente não sabe o que eles podem carregar consigo (vírus, bactérias, protozoários). Inclusive, como está a sua quarentena?

Carla Cristina Cerezoli de Jesus , 34 anos. Graduada em Biologia (UCDB - 2015) e Gestão Ambiental (UNIDERP - 2009), Mestre em Biologia Vegetal (UFMS - 2018). Desenvolveu pesquisas na área de Biodiversidade, a respeito da dispersão de espécies vegetais dispersas por morcegos (graduação). Durante o mestrado desenvolveu pesquisa com chuva e banco de sementes em pastagem abandonada na região de cerrado, onde evidenciou espécies nativas regenerantes (UFMS). Atualmente, atua como professora de biologia na escola O quintal Metropolitano e no SENAR MS como Educadora e Tutora Presencial.

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