O aumento das mortes em decorrência do coronavírus em São Paulo modificou a rotina do cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina.
Funcionários relatam que o número de enterros diários saltou de 40 para 58 nas últimas semanas, o que significa uma elevação de cerca de 45%. Metade deles relacionada à covid-19. Além disso, os enterros são mais rápidos, a toque de caixa, com menos de dez minutos.
Seu Carlos tinha problemas respiratórios e cardíacos. Ele se sentiu mal, com dificuldades para respirar na terça-feira. Deu entrada no hospital às 20h30 e morreu após uma hora. Segundo Pereira, só uma pessoa foi autorizada pelo Sistema de Verificação de Óbitos a ir ao enterro. Diabética, mas sem sintomas de covid, a mulher de Carlos não foi ao enterro. "É muito ruim ter de despedir assim tão rapidamente. E agora vou ter de fazer quarentena", diz o genro.
Desde o dia 20, enterros solitários e sem qualquer cerimônia são frequentes. Norma da Secretaria Estadual de Saúde diz que todas as mortes com qualquer suspeita de covid-19 devem seguir protocolo rígido para segurança dos profissionais que lidam com cadáveres.
Mas nem isso tranquiliza os profissionais do cemitério. A chegada de um cortejo com morto por coronavírus na Vila Formosa causa apreensão. "Põe a máscara e o capuz que vem um de corona", avisa um dos coveiros. Com máscaras e luvas, os familiares mantêm distância; nem todos ficam à beira da cova para o último adeus.
Equipe extra vai compensar afastamentos
Além das covas, a Prefeitura contratou 220 coveiros por seis meses para compensar o afastamento de 60% do efetivo (de 257), formado por idosos (grupo de risco), além de possível alta no total de óbitos. Cinco mil sacos plásticos impermeáveis foram comprados para envolver os corpos de vítimas ainda no hospital.
Na Vila Formosa eram cinco sepultadores até a semana passada. Agora são doze. "Eles estão aprendendo bem, mas ainda estão um pouco assustados. É muita gente chegando todos os dias", diz um dos profissionais do cemitério.
Em caso de dificuldades dos municípios na liberação de corpos pelos serviços funerários, causando superlotação, a Secretaria Estadual da Segurança Pública cogita usar contêineres refrigerados locados para abrigar corpos de vítimas de mortes violentas ou suspeitas de crime, cuja necropsia é feita no IML.
No dia 25, o Ministério da Saúde divulgou uma cartilha com orientação para o manejo de corpos de vítimas suspeitas e confirmadas da pandemia.
Entre as recomendações, estão a não realização de velórios, funerais, embalsamentos, aplicações de formal e necropsias e que, além disso, pessoas do grupo de risco não participem do manejo dos corpos. "Considerando a possibilidade de monitoramento, recomenda-se que sejam registrados nomes, datas e atividades de todos os trabalhadores que participaram dos cuidados post-mortem, incluindo a limpeza do quarto/enfermaria."
A cartilha também indica que os familiares não cheguem a menos de dois metros dos corpos e, se houver necessidade de aproximação, apenas com máscara, luva e avental de proteção. "Sugere-se, ainda, que, a depender da estrutura existente, o reconhecimento do corpo possa ser por meio de fotografias, evitando contato ou exposição."
A orientação é que o corpo seja enrolado em lençóis, guardado em um saco impermeável (que impossibilite o vazamento de fluídos) e colocado em um segundo saco, que deve ser desinfetado com álcool 70% ou solução clorada e, depois, identificado como de risco biológico. Se a maca de transporte do corpo for reutilizada, ela precisa ser também desinfetada, enquanto o caixão deverá estar lacrado.
Caso o exame não tenha sido feita em vida, o ministério indica que seja feita a colheita de material biológico da cavidade nasal e da orofaringe para verificar a presença do covid-19.
"A cerimônia de sepultamento não deve contar com aglomerado de pessoas, respeitando a distância mínima de, pelo menos, dois metros entre elas, bem como outras medidas de isolamento social e de etiqueta respiratória", diz o material.
Prefeitura nega que covas em cemitério foram abertas por causa da pandemia:
O prefeito Bruno Covas (PSDB) alegou nesta sexta-feira (3) que as covas abertas no cemitério da Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo, não foram feitas por causa da pandemia do novo coronavírus. Em coletiva de imprensa, o prefeito declarou que a abertura de dezenas de covas em filas é o procedimento padrão dos cemitérios municipais nessa época do ano, quando encerra o período de chuvas. A imagem aérea do local foi capa do jornal norte-americano The Washington Post na quinta (2).
“A imagem é real, mas é importante esclarecer que ela não tem nenhuma relação com o período que passamos. Todo os anos, ao final do período de chuvas, isso é feito nos cemitérios municipais para preparar o cemitério para o ano todo”, disse. “Portanto não há nenhuma novidade sobre o que foi feito em 2019, 2018, 2017. Essa imagem pode ser feita todos os anos nos cemitérios municipais. Ela não foi feita excepcionalmente por causa do coronavírus.”