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Da aceitação à amputação; uma história de superação

Há 15 anos Natanael sofreu um acidente que deixou sequelas. Sua luta contra as limitações e dores teve um fim com a decisão de amputar uma de suas pernas após a descoberta de uma infecção

Guta Rufino
22/07/22 às 19h24
Arquivo Pessoal

Um acidente de trânsito no dia 14 de abril de 2007 mudou a vida de Natanael dos Santos Souza, na época com 19 anos. Ele teve sequelas que o acompanharam ao longo de 15 anos. Dores e limitações devido a perda óssea na perna, além de inflamações e infecções, o impediram de levar a vida de antes do acidente. Em fevereiro deste ano, aos 34 anos, ele tomou a decisão de amputar a perna. O resultado dessa escolha foi uma vida mais ativa, saudável, livre de dores e com uma disposição para viver ainda maior do que antes.

O acidente aconteceu às 9h56 da manhã do dia 14 de abril de 2007. Natanael retornava do seu trabalho, em uma oficina de moto, onde havia começado a trabalhar há 15 dias. Estava a caminho de casa em sua motocicleta Honda CG Titan, uma 150 cilindradas, de cor vermelha, quando o condutor de uma Belina 2, também de cor vermelha, que estaria dirigindo embriagado, segundo apurado na época, saiu do acostamento e entrou na pista colidindo com a moto do jovem.

Arquivo/Perfil News

“Eu lembro exatamente como foi aquele dia. Estava retornando para casa, depois de fazer um teste na moto de um cliente e estava ansioso para voltar para casa e trocar os pneus da minha moto porque eu queria ir para um evento de motos na cidade de Araçatuba. Não imaginava o que poderia acontecer”.

Esse acidente causou um grave ferimento na perna direita de Natanael, que causou grande perda óssea, de nervos e tendão na região dos pés e da perna e também perdeu muito sangue.

Ele foi socorrido e levado ao Hospital Auxiliadora onde ficou por 18 dias internado e passou por vários procedimentos cirúrgicos.

Alguns dias depois de sair do hospital, Nael, como é conhecido pelos amigos e familiares, foi para Campo Grande, para fazer uma correção no ferimento. O procedimento seria uma tentativa de enxerto ósseo, mas não deu certo. Ele desistiu de fazer a cirurgia.

Quando enfim voltou para casa, começou a cuidar dos ferimentos. “O mau cheiro era muito forte. Só eu conseguia fazer o curativo porque doía muito”, relembrou.

Depois de 8 meses cuidando dos ferimentos que demoram para cicatrizar ele buscou por um médico no interior de São Paulo, para fazer o enxerto na perna que ficou deficiente. No início a alternativa foi um sucesso, entretanto foram 4 anos de persistência para melhor qualidade de vida, mas as dores não cessavam. “Coloquei platina, parafusos, nesse período minha perna encurtou. Salvei minha perna, mas ainda sentia muita dor e limitação”, contou.

Diante desse cenário, com quase 5 anos de luta contra as sequelas do acidente, Nael voltou a trabalhar, optou por não se aposentar por conta da deficiência e apesar de todas as dificuldades ele sempre persistiu em ter uma vida como a que levava antes do acidente, mas tudo mudou. “Eu não era mais o mesmo. Melhorei com meus pais, amigos, com minha saúde. Comecei a dar mais valor em tudo diante desse desafio que eu estava enfrentando desde o acidente”.

Dia após dia uma dor mais ou menos intensa o perturbava. Sessões de fisioterapia e equipes médicas faziam parte de sua rotina há anos e nada se resolvia. Além disso, uma outra situação ainda o perturbava. “Eu tinha um processo contra o condutor do veículo que me acidentou. Eu escolhi perdoar e foi a melhor coisa que fiz. Larguei mão de seguir com o processo e eu digo uma coisa: o perdão cura. Diante todas as dores que eu enfrentava, sequelas do acidente, depois que eu perdoei e me livrei dessa mágoa, que agravava ainda mais minha condição, muita coisa melhorou. Me fez caminhar e abriu portas em minha vida. Uma delas foi voltar para a igreja, onde nasci, cresci, fui músico e também cantava quando criança e adolescente”, pontuou.

Imagens de exames de quando Natanael descobril que a melhor alternativa para sua qualidade de vida seria amputar o pé direito (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois do processo de aceitar sua deficiência, Nael começou a enfrentar um outro processo de aceitação, 15 anos depois, o de amputar o pé direito. Além do sofrimento físico, ele se cansou da limitação para brincar com o filho, José Antônio, hoje com 6 anos, que desde os 2 o chamava para jogar bola. “Minha deficiência nunca me parou, mas eu estava muito limitado e sofrendo”.

Apesar da decisão de amputar o pé ter acontecido neste ano, a sugestão já havia sido feita por médicos e especialistas ao longo dos últimos 12 anos. “Eu fiz de tudo para salvar minha perna, ela estava ali, inteira. Eu chorava quando eu ouvia que teria que amputar meu pé - até a canela”.

Em 2018 o jovem fez uma cirurgia de correção, mas nos últimos 3 anos ele não aguentava mais sofrer com dores.

E foi no início deste ano, que Natanael passou por um médico para avaliar uma lesão no cotovelo. Ele aproveitou a oportunidade e pediu para que o profissional de saúde pedisse exames de seu pé. Foi então que ele teve uma surpresa. Estava com uma parte óssea comprometida e com uma infecção: osteomielite.

Arquivo Pessoal

Diante deste cenário ele começava a se decidir pela amputação, então seguiu para uma consulta em Araçatuba/SP. Ele pegou a estrada com sua moto, uma Honda Biz, 125, de cor preta. Nael sabia que seria a última vez que faria uma das últimas vezes que pilotaria uma moto com seus dois pés.

“Vou amputar. É minha escolha”, pensou com sentimento de dever cumprido. “E foi uma das melhores e mais importantes decisões da minha vida. Hoje faço com uma prótese o que não pude fazer ao longo de 15 anos”, revelou.

E não foi fácil, mas ele estava determinado. Desde o momento que tomou essa decisão, Nael buscou por pessoas que sofreram sequelas semelhantes e se conscientizaram de que estavam fazendo a escolha certa.

Em fevereiro deste ano a vida de Natanael tomou um novo rumo. No dia 8 de abril aconteceu a cirurgia para amputação. “No tempo certo, na vontade de Deus, aconteceu. Acordar da anestesia, me ver sem meu pé já foi um alívio e tanto para 15 anos de dores. Agora meus sonhos de fazer tudo que não pude ao longo desse tempo todo poderiam se tornar realidade”, frisou.

Arquivo Pessoal

Hoje, Natanael motiva pessoas que estão em uma condição semelhante a que ele já passou ou está. Com um mês de recuperação da cirurgia de amputação do pé direito ele já começou a pular cordas, fez uma rifa onde vendeu mais de mil números e conseguiu comprar uma prótese no valor de R$ 35 mil reais, que o possibilita ter mais qualidade de vida e praticar exercícios físicos como natação, caminhada, corrida, esteira, pular corda, andar de bicicleta e principalmente brincar com o filho que tanto sonhou a companhia do pai para brincar de futebol, acompanhar ativamente o desenvolvimento de seu caçula, Francisco, de 1 aninho e passear com sua esposa, Mayara, sem preocupação com desconfortos físicos devido às limitações que a deficiência causavam antes da prótese. “Minha família foi minha maior motivação para essa decição”.

“Muitas coisas que pensamos que vem para a morte, vem para a vida. Renovei minhas forças. Tudo novo se fez”, disse Nael fazendo referência bíblica à passagem segundo Coríntios 5:17. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

A mensagem que deixo para todos aqueles que lutam diante uma limitação é que tenham fé, sejam pacientes, perdoem e aceitem. Tudo passa. Pode levar o tempo que for, mas vai passar”, concluiu.

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