29 de janeiro, é o Dia da Visibilidade Trans. E, exatamente uma semana atrás, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo divulgava dados mostrando que o número de casos de violência contra pessoas trans aumentou 17% em 2020. O número de homicídios passou de 19, entre janeiro e outubro de 2019, para 21, no mesmo período. Isso só em São Paulo.
O cenário do país é o mesmo: preconceito, violência e crueldade contra travestis e transexuais. De acordo com levantamento feito pela ONG Transgender Europe, o Brasil é o país que mais mata, em números absolutos, pessoas trans em todos o mundo. Além disso, dados da União Nacional LGBT apontam que a expectativa de vida de um transgênero no Brasil é de apenas 35 anos. Geralmente, eles são mortos antes disso.
A transfobia (aversão ou discriminação contra a população trans) é uma realidade cruel, que leva as pessoas trans a abandonarem os estudos e enfrentarem dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Além do próprio risco de vida.
A reportagem do Hojemais conversou com Pedro Nascimento, homem trans que nos explicou mais sobre o assunto.
“A transexualidade ou uma pessoa trans se trata de um ser humano que não se identifica com o gênero a qual foi atribuída (o). Isso não nos faz diferentes e não se trata de nenhuma anomalia ou complicações mentais. A OMS (Organização Mundial de Saúde) retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais. Ou seja, não somos resultado de algo que não deu certo, como muitos acham, somos pessoas que nasceram em condições a qual não nos representam e a partir disto decidimos assumir quem somos e como nos sentimos.
O Dia da Visibilidade Trans se torna importante como meio de conscientização e busca por direitos. Trazer a realidade para ouvidos e olhos e dar oportunidade de entender ou ao menos explicar sobre o tema. Porém ainda sim na maior parte das vezes onde queremos falar e falamos sobre, mais que a metade daqueles que ouvem se negam a acreditar ou entender. Esse dia quase que se torna invisível, pois se existem informações, mas a mensagem falha na recepção, de nada adianta o esforço”, explicou ele.
A criadora da Bandeira do Orgulho Trans, Mônica Helms, disse em 1999: “Azul para meninos, rosa para meninas, branco para quem está em transição. E, para quem não se sente pertencente a qualquer gênero: isso significa que não importa a direção do seu voo, ele sempre estará correto”!
Pedro nos contou como foi se descobrir trans, “A minha infância sempre foi coberta de dúvidas e questionamentos. Mesmo eu sendo criança eu sempre me perguntei muito sobre quem eu era e o que eu era. Sempre fui completamente masculino, não que isso se denomine através de roupas ou comportamentos, mas ao meu ver eu não era como as demais meninas. A adolescência foi complicada pois é quando você se descobre existente no mundo e eu simplesmente ainda não sabia quem eu era. Fui conhecer a palavra Transexual aos 21 anos de idade e foi quando eu disse a mim mesmo: Sei quem eu sou. No início foi difícil na questão familiar, mas com o tempo eles aprenderam muito comigo e se dispuseram a aprender sobre quem eu era. O que não é o caso de muitos. Hoje eles me respeitam como Pedro. Tive sorte, pois mais do que a metade das pessoas trans são tratadas como lixo pela sua própria família. ”
A falta de ações do governo federal relacionadas ao tema se contrapõe à origem do Dia Nacional da Visibilidade de Transexuais e Travestis. Comemorada desde 2004, a data foi fixada pelo lançamento da campanha “Travesti e respeito”, elaborada por lideranças históricas do movimento de transexuais no país em parceria com o Programa Nacional de DST/Aids, do Ministério da Saúde.
Em 29 de janeiro de 2004, a campanha foi um marco por ter levado 27 transexuais e travestis aos salões do Congresso Nacional, em Brasília. Em anos anteriores a 2019, o governo federal divulgou ações e se pronunciou em nota sobre a data.
Pedro desabafou sobre como é ser trans no país, “Falo pela minha vivência e análise dos que conheço que ser transsexual ou transgênero no Brasil se torna algo banhado de luta e sofrimento. Mulheres trans morrendo espancadas ou baleadas todos os dias, homens trans se matando pela realidade injusta que vivem. Ser trans no Brasil se resumi em sair de casa e não saber se voltará com vida, ou entrar dentro de casa e não saber se conseguirá não tira-la. ”
Pedro finalizou nossa entrevista deixando um recado para quem está se descobrindo “Para você que assim como eu passou muito tempo sem saber quem era ou o que era, eu aconselho força e ajuda psicológica para que você junto a um profissional da psicologia ajude a abrir as portas da sua mente. Me recusei durante muito tempo a obter ajuda, talvez se seu tivesse aceitado e ido atrás, não teria sofrido tanto. Existem boas pessoas trans que podem ajudar aqui na cidade. Se você estiver com medo de ir atrás de ajuda, eu ofereço minha ajuda e se possível minha companhia para que você não se sinta só. ”