A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano da Fundação Oswaldo Cruz (rBLH-BR/Fiocruz) realiza entre segunda-feira (18) e quarta-feira (21), no Rio de Janeiro, o I Congresso da Rede Global de Bancos de Leite Humano.
Com o tema “15 Anos Promovendo Equidade e Resiliência”, o evento marca os 15 anos do Dia Mundial de Doação de Leite Humano e promove discussões sobre avanços, desafios e perspectivas da mobilização mundial em defesa da doação de leite humano, considerada essencial para a recuperação e desenvolvimento de recém-nascidos prematuros e de baixo peso internados.
Atualmente, o Brasil conta com mais de 230 bancos de leite humano espalhados pelo país.
Sensibilização para aumentar as doações
A coordenadora da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano e do Banco de Leite Humano do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Danielle Aparecida da Silva, afirmou que o principal desafio ainda é conscientizar mulheres lactantes sobre a importância de doar o leite excedente em vez de descartá-lo.
Segundo Danielle, muitas mães produzem mais leite do que os bebês conseguem consumir e acabam jogando o excedente fora, quando ele poderia ajudar recém-nascidos internados.
Ela explicou à Agência Brasil que os bancos de leite atuam como serviços de saúde que apoiam a amamentação, realizam a coleta do leite excedente, fazem o processamento e o controle de qualidade antes de direcionar o alimento aos bebês prematuros e de baixo peso.
Apesar da importância do trabalho, Danielle destacou que o volume arrecadado ainda não é suficiente para atender todos os recém-nascidos que necessitam do leite humano.
Doações diminuem após campanhas de maio
De acordo com a coordenadora, as doações costumam aumentar durante o mês de maio, período em que há maior mobilização da sociedade. Porém, ao longo do restante do ano, os números diminuem significativamente, principalmente durante férias escolares e festas de fim de ano.
No Banco de Leite do Instituto Fernandes Figueira, por exemplo, são registradas entre 100 e 150 doadoras por mês, com produção média entre 100 e 150 litros mensais.
Danielle também alertou que a proximidade do inverno eleva os casos de doenças respiratórias e, consequentemente, aumenta o número de internações de bebês, ampliando a demanda pelo leite humano.
Ela reforçou que o leite doado vai além da alimentação, funcionando como recurso terapêutico importante para fortalecer a imunidade, auxiliar no desenvolvimento infantil e contribuir para uma recuperação hospitalar mais rápida.
Crescimento das doações ainda é insuficiente
Segundo a Fiocruz, houve aumento de 8% nas doações de leite humano no país. Mesmo assim, Danielle considera o crescimento abaixo do necessário.
O Distrito Federal já alcançou autossuficiência, conseguindo arrecadar leite suficiente para atender todos os bebês que precisam do alimento. Rio Grande do Sul e Santa Catarina também avançam na sustentabilidade das doações.
Já nas regiões Norte e Nordeste, a realidade ainda é diferente. Grande parte dos estados possui apenas um banco de leite humano, com exceção do Amazonas e Pará.
No estado do Rio de Janeiro, a rede conta com 17 bancos de leite humano distribuídos entre capital, região metropolitana e cidades do interior, como Petrópolis, Nova Friburgo, Campos e Volta Redonda.
Apesar da estrutura, Danielle afirmou que as doações permaneceram estáveis e, em alguns períodos, chegaram a registrar queda.
Pandemia impulsionou campanhas globais
Entre os avanços registrados nos últimos 15 anos, Danielle destacou a reinvenção das campanhas durante a pandemia da covid-19.
Segundo ela, a própria rede lançou um edital internacional para escolha do slogan do Dia Mundial de Doação de Leite Humano, aberto à participação da sociedade em inglês, francês e espanhol.
A iniciativa recebeu propostas dos cinco continentes e escolheu, por votação popular, o slogan “A pandemia trouxe mudanças; a sua doação traz esperança”.
O modelo foi mantido e segue sendo utilizado até hoje. Em 2016, por exemplo, o slogan vencedor veio do Equador: “A solidariedade nutre e a vida cresce”.
Brasil é referência mundial em bancos de leite humano
Há quatro décadas, o Brasil desenvolve soluções inovadoras para bancos de leite humano por meio da Fiocruz, consolidando a maior e mais complexa rede do mundo nessa área.
O trabalho brasileiro é reconhecido internacionalmente em ações de cooperação em saúde envolvendo o Ministério da Saúde, o Ministério das Relações Exteriores, a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Fiocruz abriga ainda o único Centro Colaborador da Opas/OMS para Bancos de Leite Humano em escala mundial.
O Dia Nacional de Doação de Leite Humano começou a ser celebrado no Brasil em 2004. Já o Dia Mundial foi instituído em 19 de maio de 2010, durante congresso realizado no país.
Congresso discute saúde global e mudanças climáticas
Durante o congresso, especialistas, pesquisadores, gestores públicos, organismos internacionais e representantes da sociedade civil discutirão temas como os impactos da pandemia da covid-19, mudanças climáticas, emergências sanitárias, crises humanitárias e estratégias ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 3, voltado à saúde e bem-estar.
O encontro será realizado no Hotel Windsor Guanabara, na região central do Rio de Janeiro, em formato híbrido, com transmissão pela plataforma Zoom e pelo canal oficial da rBLH no YouTube, sempre a partir das 8h.
A programação completa pode ser consultada na página oficial da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano.
