Sem encontrar compradores para suas fábricas de fertilizantes, a Petrobras começa a ter outras dores de cabeça com esses ativos. O fruto da nova celeuma é a unidade inacabada de Três Lagoas (MS). O término da construção estava previsto para o segundo semestre de 2014, mas as obras foram paralisadas em dezembro daquele ano com 80% da construção conc cluída, e agora fornecedores do projeto cobram dívidas.
Os investimentos inicialmente previstos na planta eram de US$ 2 bilhões. Um consórcio formado pela brasileira Galvão Engenharia, pelo braço brasileiro da Sinopec - ambas atualmente estão em recuperação judicial - e pela GDK era responsável pelas obras. Em 2012, a GDK deixou o consórcio e repa ssou sua participação de 33% para a Galvão.
Um grupo com 70 fornecedores desse consórcio (UFN3) - entre eles Breda Transportes e Serviços, Conselmar Engenharia e Construção, Dimex Materiais Elétricos e Schneider Eletric Brasil - alegam que a Petrobras teria se responsabilizado por eventuais dívidas referentes à construção da fábrica.
"E hoje a Petrobras quer se isentar dessa responsabilidade. O plano de pagamento proposto pela Galvão é vergonhoso", afirmou um dos integrantes do grupo de empresários que reclamam as dívidas do consórcio.
Em dezembro de 2014, a Petrobras rescindiu o contrato de construção da fábrica, alegando o descumprimento de cláusulas contratuais por parte do consórcio. Este, por sua vez, afirmava que a estatal não estava cumprindo as novas referências de valores previstas em contrato.
Oficialmente, a dívida do consórcio com os fornecedores chega a R$ 120 milhões. Mas os fornecedores alegam que os valores reais seriam cerca de dez vezes superiores a isso. "Os valores estão desatualizados e há itens que estão com valores errados mesmo", afirmou a fonte, que preferiu não se identificar.
Em nota, a Petrobras afirmou que não fez parte da relação jurídica estabelecida entre fornecedores e o consórcio UFN3. "A Petrobras informa, contudo, que ao ficar ciente da situação de inadimplência do consórcio UFN3, tomou todas as ações que estavam ao seu alcance e dentro dos limites legais, para que o consórcio cumprisse com suas obrigações perante seus fornecedores contratados", informou a estatal.
A empresa afirmou, ainda, que a situação dos fornecedores é objeto de Ação Civil Pública que tramita perante o Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. "Os fornecedores de Três Lagoas entraram com Ação Civi l e conseguiram o bloqueio de R$ 36 milhões em bens. Essa é uma das saídas que estamos estudando aqui em São Paulo também", disse um dos empresários do grupo.
Os credores reclamam que as propostas de pagamento pelos planos de recuperação judicial da Galvão e da Sinopec são descabidos. "A Sinopec quer pagar apenas os 33% da dívida que eles disseram que são responsáveis no consórcio, e em dez anos", disse outro fornecedor do grupo..
Enquanto isso, a Petrobras segue buscando compradores para as unidades de fertilizantes, incluindo a de Três Lagoas. As negociações com a empresa russa Acron para a venda da unidade em construção estavam avançadas, segundo informou a estatal em maio, mas até o mom ento o negócio não foi firmado. A venda da unidade para os russos deve somar R$ 3,2 bilhões, mais o pagamento de R$ 40 milhões a fornecedores.
Quando finalizada, a unidade será um complexo de adubos com capacidade de produção de 761,2 mil toneladas de amônia e 1,2 milhão de toneladas por ano de ureia.