A mãe fala que "há 20 anos não pegava em um caderno". A filha, sabendo do sonho dela, a incentivou a retomar os estudos, em Campo Grande. Em casa, durante todo ano de 2020 e mesmo diante à pandemia, elas dedicaram todas às tardes reforçando os "pontos fracos", fazendo simulados on-line e trocando ideias sobre redação. O resultado? Ambas passaram em uma universidade federal, em 2° e 4° lugar, respectivamente.
"Eu tive oportunidades de prestar vestibular em outros lugares, mas sempre quis a UFMS [Universidade Federal de Mato Grosso do Sul] porque moro perto. Peguei o edital e foquei no que mais tinha dificuldade. Minha mãe, que é uma mulher batalhadora e que sempre correu atrás dos seus objetivos, queria retomar os estudos. Nós então nos dedicamos e agora vamos entrar juntas na faculdade", afirmou ao G1 a estudante Eloisa Elena Silva de Moura Lima, 18 anos.
Segundo Eloisa, que é autista, o sonho de fazer faculdade parecia distante no ensino médio. "Eu sempre ouvi da boca das pessoas e criei pensamentos errados na minha cabeça. Diziam que autista não entra no mercado de trabalho. Na época da escola, este era o meu estereótipo. Estava realmente desgastada nessa época, só que ainda assim tinham pessoas que acreditavam em mim, como minha família e professores", relembrou.
Em 2019, quando prestaria vestibular pela primeira vez, Eloisa esqueceu o prazo de pagamento e perdeu a chance de fazer a prova. "No outro ano, criei a rotina de estudos em casa com a minha mãe. Há 3 dias, quando saiu o resultado por volta das 3 horas da manhã, eu a acordei e ela achou que fosse brincadeira. Nunca tive ninguém para corrigir a minha redação e mesmo assim tirei 950. É uma alegria enorme", disse.
Conforme Eloisa, o pai trabalha como caminhoneiro e o irmão mais velho, de 25 anos, já concluiu os estudos e trabalha. "Minha mãe sempre foi a minha maior inspiração. Ela largou os estudos para nos cuidar e por isso a incentivei tanto. Quando saiu o resultado, falei pra ela: eu só te ajudei, isso tudo é o seu esforço. Considero tudo isso uma vitória e, quando falei da minha história, veio muitas mulheres e pessoas me pedir ajuda na redação. Vou fazer isso com o maior prazer, porque acho que educação é algo que todos devem ter acesso", argumentou.
A mãe, agora estudante de geografia, fala que a filha "foi uma peça muito importante" neste período de estudos. "Parei o ensino médio com 16 anos, então ela se dedicou em mostrar os pontos chaves, em como fazer o melhor em uma boa redação. Tinha muito tempo longe da escola e, pra falar a verdade, não tinha nenhuma esperança, mesmo tendo o sonho de voltar a estudar", ressaltou.
Na época da adolescência, Elizandra Silva de Moura, de 47 anos, relembra que precisou trabalhar em tempo integral e chegou a transferir a escola para o período noturno. "Minha família não chegava a ser carente, só que era a renda só do meu pai e foi necessário trabalhar cedo. Aí eu casei com 21 anos e, com 22, já estava grávida e meu primeiro filho teve problemas de saúde no pulmão. Por muito tempo, fiquei levando ele em hospitais", contou.
Já no caso da filha caçula, Elizandra fala que percebeu o quanto ela era saudável, porém, tinha algo na questão comportamental. "Foi bem difícil também, porque passamos por inúmeros médicos até ter o diagnóstico. Meu marido é um homem maravilhoso, excelente, só que a profissão dele sempre me fez ficar muito tempo sozinha. E agora estou realizando o meu sonho. E tudo continua sendo em prol da minha família, por eles e para eles", finalizou.
(*) G1
