Lembra quando você era criança e voltava para a sala de aula e tinha que fazer aquela redação ‘Minhas férias’? Parecia um jeito muito entediante de resumir o que foi incrível.
Mas, a três-lagoense Cristiane Zupa Camargo, resolveu fazer ao contrário, e antes de viajar para a Índia -país que sempre sonhou conhecer- gravou um vídeo para explicar as férias antes mesmo de partir.
A professora de inglês e presidente do Rotary Club Cidade das Águas, em seu post de despedida no Facebook, disse que muitos se alegraram com a sua alegria. Alguns a repreenderam com o olhar, e teve até quem a perguntou o porquê desta decisão, porém ela simplesmente respondeu com um sorriso e disse: “Porque é o meu sonho!”, escreveu.
Cris, como é mais conhecida em Três Lagoas, inscreveu-se em processo de seleção de uma ONG (Organização Não Governamental) Internacional, com sede na Índia, para prestar serviços voluntários. Para a sua surpresa, foi selecionada. Ela passará mais de 4 semanas no país com a segunda maior população do mundo, onde irá trabalhar com o empoderamento feminino. Segundo ela haviam outras opções de trabalho, mas preferiu trabalhar junto às mulheres.
“Minha opção foi aceita e nesta viagem vou realizar 3 grandes sonhos. Fazer serviço voluntário fora do país, com outra realidade, conhecer a Índia, um país exuberante e exótico, e trabalhar com empoderamento feminino. Como feminista trabalhar com mulheres me deixa muito orgulhosa e feliz. Sinto que esta viagem será um divisor de aguas na minha vida”, destaca.
O trabalho voluntário começou oficialmente nesta quinta-feira (3). Pela manhã a três-lagoense trabalha com crianças em uma escola publica e a tarde com mulheres.
“Começamos o dia ainda muito cedo com aula de Yoga. Após a aula, café da manhã, banho e partiu para o primeiro projeto: ser assistente em escola pública e em sala multi seriada, com crianças de idades entre 2 anos e meio a 6 anos, de família muito pobres e de baixa nutrição”, disse.
“Ali eu vi o quão difícil é a profissão de ser professor em todo lugar do mundo, pois sei das minhas dificuldades no Brasil e vejo agora as dificuldades deles aqui. Não há material, não há lousa, não há diversidade de coisas a serem feitas, vai muito da imaginação e fôlego (haja fôlego)”, complementa.
“Uma sala cheia, com crianças correndo, brincando, engatinhando e que não sabem nem sua própria língua e nós temos que prepará-los para os testes para ingressar na escola normal. Criança é criança em qualquer lugar do mundo, então passei por coisas que passaria no Brasil, mas com o idioma como barreira, pois "meu hindi " não existe”, brinca.
“Ao retornar da escola, montamos um plano antes do almoço e depois fomos para a favela para o projeto Women Empowerment, quando eu comecei a subir aquele lugar, começou a me dar uns arrepios, não de medo, nem de coisa ruim, mas da energia daquele lugar. Passava por senhores orando, crianças correndo e gritando, mulheres cobertas da cabeça aos pés. Tudo sujo, imundo e eles sorriam para nós, alguns com poucos dentes que lhes restavam. Uma triste realidade. Passamos algumas horas com um grupo de mulheres e montamos filtros de sonhos, hoje era dia de algo manual, e elas e nós ficamos super felizes com o resultado”, explica.
Cris, fala das suas expectativas quando se inscreveu no projeto. “Confesso que quando me inscrevi no programa, eu achava que faria discussões políticas, que teria roda de conversas, debates. Mas eu simplesmente me deparei com mulheres de várias idades, a grande maioria sem acesso a escola, aprendendo inglês agora e com filhos e o simples ato de ensinar a fazer um filtro dos sonhos fez com que elas se sentissem especiais, mais sábias e importantes, e eu confesso, me emocionei, pois vim para cá com uma ideia e agora eu percebo, que com uma cultura tal qual a essa, com a forma com que a sociedade patriarcal as trata, dar-lhes um fio de esperança para mudar, para buscar algo a mais, já é um sonho que pode se tornar realidade, tais como os sonhos que elas depositaram naqueles filtros. Sei que ainda há muito o que ser feito, mas tentarei de todas as formas possíveis contribuir para que haja alguma mudança, e a primeira delas é na forma de pensar, de se valorizar e de sonhar com uma vida melhor”, descreve a três-lagoense no 4° dia do diário de bordo.
Depois do trabalho voluntário a professora sai em retiro espiritual para conhecer outras 4 cidades: Agra, Jaipur, Mumbai e Delhi. O roteiro inclui conhecer o Taj Mahal. O que ela descreve como o seu maior sonho.
Muitas coisas chamaram a atenção da professora na Índia, porém ela destaca a curiosidade masculina pelas ocidentais a mais intrigante. “Os olhares dos homens daqui me intrigam, ainda mais na praia. Eles filmam as ocidentais e pedem para tirar selfies”, conta. Ela diz ainda que a receptividade dos indianos a deixou muito feliz.
Cris está em Goa, estado que foi colonizado por portugueses. “É lugar de praia e turismo. Muita gente do mundo inteiro. Tem muitos europeus aqui, muitos jovens voluntários. Isso me deixa bem feliz, porque essas novas gerações se preocupam com os outros”, finaliza.
A viagem para a Índia teve inicio no dia 30 de dezembro. Cris chegou ao outro lado do mundo, no dia 31. Através da sua página no Facebook, ela criou um diário de bordo, onde publica diariamente fotos e resumos da viagem.