A chegada de mãe e filha no salão de beleza da empresária Jaque Peres em Três Lagoas parecia apenas mais um procedimento normal. A empresária recebeu as duas, vindas de Panorama, no estado de São Paulo, para tratar os cabelos de Maria Vitória, e deixa-la ainda mais bonita.
Logo no início, a empresária estranhou a atitude da menina de apenas 7 anos. Sempre quieta, com a cabeça baixa e o olhar triste. “Eu questionei a mãe, porque ela estava tão triste. Foi aí que eu comecei a entender toda a situação”, disse a empresária.
A mãe contou que desde muito pequena, a menina sofre com o bullying e o racismo na escola.
“Racismo é algo que a gente vê todos os dias aqui no salão com nossas clientes, principalmente as crianças, mas a história da Maria Vitória foi muito comovente”, explicou a empresária.
Jaque Peres disse que atende inúmeras crianças que tem cabelos afros e querem alisar devido ao preconceito, e por este motivo, sempre acompanha os procedimentos. “Eu tenho uma profissional que cuida dos cabelos, e sempre fico próxima para estimular essas crianças e as mães a se livrarem do preconceito. O nosso trabalho mais importante é com as mães, em incentiva-las a falar para os filhos que os cabelos são lindos. Temos que instruir as crianças a se defenderem e a falar abertamente sobre preconceito”, explica.
Segundo ela, a menina estava acostumada ouvir outras crianças a chamando de feia, “Ela não se defendia, apenas abaixava a cabeça e ficava quieta”, disse.
A empresária disse que instruiu a criança a se defender, além de mostrar o quanto ela é linda. “Fiz um combinado com ela, para que ela se defenda e reaja. Porque disto? Ela deve reagir e se expressar. As crianças que sofrem preconceito acabam murchando, e ficando cada vez mais tímidas e introspectiva”, comentou.
Para a empresária o papel da mãe é fundamental, em mostrar que são lindas, da forma que são, com o cabelo que tem. “Elas têm que entenderem que são lindas com a beleza que possuem. Os pais têm que entrar nessa luta, e mostrar que eles são lindos com a pele e o cabelo que possuem”, diz.
A empresária ressaltou que histórias como a da Maria Vitória são comuns no salão. “Muitas histórias sobre preconceito são contadas, mas a dela foi muito profunda, toda a equipe do salão ficou emocionada. Ela entrou muito tímida. Fizemos com que ela saísse com a autoestima elevada, sorrindo e feliz”. Se acaba com a autoestima da criança, na primeira infância, isto reflete na vida toda. Bulling é algo para se tratar, é algo muito sério, esta é a fase da formação da criança, ela vai crescer achando que é feia, que é menos que as outras pessoas”.
Jaque Peres disse que mantém no salão o incentivo ao cuidado com a beleza, mas principalmente com autoestima. “A Maria Vitoria se tornou nosso xodó, vai voltar a cada dois meses no salão para cuidar dos cachos”, comenta.
Segundo a empresária, a cabeleireira que realiza os tratamentos no salão, também passou por racismo na infância. “Ela foi a que mais se comoveu. Ela é negra, tem o cabelo afro, e acabou alisando por conta do racismo”, explicou.
Para a empresária as mães de meninas negras, acabam fazendo este processo para as filhas poderem serem aceitas. “Nosso trabalho é mostrar para as mães que as filhas são lindas como são. Ver a Maria Vitória saindo do salão feliz, foi arrebatador. Nenhum dinheiro do mundo paga a alegria e o olhar destas crianças depois que elas se veem no espelho. É muito importante trabalhar ainda na infância esta autoestima”, pontua.
A empresária explica no seu espaço de beleza não realiza alisamento em crianças, mesmo com insistência da mãe. “Isso é algo que eu levo para vida. No meu salão não faço alisamento em crianças. Se adulta ela quiser aí e outra história, e mesmo assim todos que me conhecem sabe o quanto eu luto pelo fim da progressiva, finaliza.