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Ana Maria Barbosa: quando a coragem encontra as palavras

Jornalista há 37 anos, colaboradora histórica da Revista Rara Gente e agora escritora, Ana Maria Rodrigues-Barbosa lança “Miados & Ditados – Poeminhas para ouvir o outro lado” e mostra que nunca é tarde para transformar um sonho em realidade.

Edgard Júnior - Agitta Social
14/09/26 às 09h53
Fotografia: Viviane Almeida

Por décadas, Ana Maria Rodrigues-Barbosa fez da palavra seu ofício. Jornalista, professora, servidora pública, artesã e empreendedora social, ela construiu uma trajetória profissional marcada pela comunicação e pelas histórias que ajudou a contar. Entre os capítulos dessa caminhada está também sua importante contribuição para a Revista Rara Gente, do Grupo Agitta de Comunicações, onde, durante muitos anos, foi responsável por escrever e assinar matérias que ajudaram a registrar personagens, acontecimentos e momentos da sociedade três-lagoense.

Agora, a mulher que durante tanto tempo escreveu sobre histórias alheias vive um momento especial: chegou a vez de colocar suas próprias palavras em um livro.

Aos 37 anos de profissão, Ana Maria estreia oficialmente na literatura com “Miados & Ditados – Poeminhas para ouvir o outro lado”, uma obra que representa muito mais do que uma publicação. O livro simboliza um sonho que permaneceu guardado durante décadas e que finalmente encontrou coragem, espaço e oportunidade para sair do papel.

Natural de Três Lagoas, Ana Maria atuou durante 15 anos em jornais e assessorias de imprensa na capital paulista. De volta à cidade natal, passou pelos principais veículos de comunicação, lecionou nos cursos de Jornalismo e Publicidade da AEMS durante sete anos e, desde 2007, é servidora efetiva da Câmara Municipal de Três Lagoas, onde atua como analista de comunicação.

Paralelamente à comunicação, também encontrou no artesanato e no empreendedorismo social uma outra forma de expressão. É fundadora do Ponto de Cultura Teia Criativa, iniciativa colaborativa entre artesãs que atua no Shopping Três Lagoas desde 2019 – mas havia ainda uma parte de sua história esperando para ser vivida.

Quando o sonho deixa de esperar.

A literatura entrou oficialmente em sua trajetória em 2025, quando Ana Maria começou a participar de livros de coletâneas e antologias, reunindo autores selecionados por meio de prêmios, concursos e curadorias abertas.

No mesmo ano, venceu a categoria crônica do Prêmio Inverno em Vários Tons, da Editora Typus, e também chegou à final de diversos concursos com crônicas, contos e poemas. O reconhecimento foi importante para que ela passasse a acreditar mais em sua própria produção. Ao todo, desde o ano passado, já integra 12 livros.

A decisão de finalmente abraçar a literatura, entretanto, não aconteceu de maneira simples. Ana Maria reconhece que começou tarde por diversos motivos: a dedicação ao trabalho, o empreendedorismo social, a rotina com os filhos e até mesmo um certo receio diante do respeito que sempre teve pelos livros. Havia também o medo da reprovação e da possibilidade de não encontrar uma editora interessada em seus textos.

Até que o tempo passou a falar mais alto.

Mãe de três filhos, ela percebeu que havia plantado árvores, construído uma carreira e vivido tantas experiências, mas ainda não tinha seu próprio livro.

Então veio o pensamento que mudou tudo: “É agora; amanhã pode ser tarde”. Foi esse sentimento de urgência que a fez mergulhar de vez no universo literário.

Uma nova voz para quem sempre escreveu

O contato com o mercado de publicações coletivas também foi decisivo. A partir de uma conversa com o jornalista e escritor Cadu Xavier, Ana Maria descobriu novas possibilidades de publicação, pesquisou editoras e começou a submeter seus textos.

Acostumada ao método jornalístico de trabalhar com pautas e temas, encontrou nas coletâneas e concursos uma espécie de campo de experimentação. Os resultados positivos foram trazendo confiança e, principalmente, empoderamento para continuar escrevendo.

Mas existe uma diferença profunda entre a jornalista e a escritora.

No jornalismo, escrever sempre foi seu trabalho. Era a profissão que sustentava sua casa, pagava as contas e ajudava a educar seus três filhos. A pauta chegava, a história precisava ser contada e havia um objetivo definido.

Na literatura, entretanto, as perguntas são outras.

O que existe dentro dela que precisa ser dito sem que ninguém pergunte? O que sente? Qual é sua voz no mundo? O que deseja comunicar? Quem irá ler?

É justamente essa transição que Ana Maria considera um dos maiores desafios de sua nova fase.

Depois de uma vida inteira escrevendo profissionalmente, ela agora precisa descobrir a liberdade de escrever também por necessidade interior – e isso exige coragem.

“Miados & Ditados”: um sonho de quatro décadas

Seu primeiro livro, “Miados & Ditados – Poeminhas para ouvir o outro lado”, nasceu de uma anotação feita há aproximadamente 40 anos.

A ideia inicial, guardada durante décadas, acabou se transformando em algo diferente do que Ana Maria imaginava. Ela própria resume o processo dizendo que, às vezes, um livro parece se escrever sozinho.

A obra também revela seu carinho pela literatura para crianças e adolescentes, área na qual pretende continuar investindo. Muitos dos rascunhos que manteve guardados ao longo dos anos pertenciam justamente a esse universo.

Quando decidiu publicar, Ana Maria chegou a apresentar o projeto a algumas editoras. Três demonstraram interesse, mas as condições propostas não eram, em sua avaliação, favoráveis para o autor.

Em vez de abandonar o sonho, ela escolheu outro caminho. Criou um MEI de editora independente e decidiu autopublicar o próprio livro. Para isso, mergulhou em cursos, leituras e estudos sobre escrita e mercado editorial. O processo, segundo ela, é trabalhoso, mas as novas tecnologias, os coletivos, as parcerias e a prestação de serviços tornaram a publicação independente mais acessível.  a conquista já ultrapassa as páginas do próprio livro: Ana Maria terá a oportunidade de expor sua obra durante dois dias no maior evento literário da América Latina.

Mais do que publicar, abrir caminhos

A experiência fez nascer um projeto ainda maior, por meio da Teia Criativa Literatura Contemporânea, Ana Maria pretende atuar em três frentes: continuar viabilizando seus próprios projetos literários, auxiliar outros autores na publicação de seus livros e ajudar a reunir e organizar escritores três-lagoenses. A proposta é movimentar o setor literário local, criar oportunidades e contribuir para a formação de novos leitores em Três Lagoas.

Assim, sua estreia como escritora também se transforma em uma possibilidade de incentivar outros sonhos.

O desafio de encontrar o leitor

A independência editorial trouxe liberdade, mas também responsabilidades. Ana Maria investe recursos próprios na publicação, divulgação e circulação do livro. Por ser uma obra ilustrada e colorida, os custos são maiores, e ela encara com bom humor a necessidade de fazer o projeto se sustentar. Mais importante, porém, é a construção de um público. Ela sabe que publicar é apenas uma etapa. Depois vêm a divulgação, a venda, a conquista do leitor e a permanência.

“Como chegar, como convencer a comprar e ler, como criar público e permanecer?”, questiona.

Mesmo diante das dificuldades, as validações recebidas de pessoas que atuam no setor têm sido uma das maiores recompensas.

E há algo ainda mais profundo nessa experiência: a possibilidade de, depois de tantos anos, fazer novamente aquilo que sempre fez — escrever — mas agora sob uma perspectiva completamente diferente.

A mulher por trás da escritora

Existe também uma Ana Maria que não cabe em uma assinatura profissional. Hoje, ela vive uma nova configuração familiar, voltando a morar sozinha depois de muitos anos acompanhada. A casa é dividida com plantas e gatos, enquanto os filhos, irmãos e sobrinhos continuam ocupando um espaço fundamental em sua vida.

Ela define a família como seu “esteio e porto” , formada por pessoas que compartilham preocupações, medos, conselhos, acolhimento e afeto.

É também nesse ambiente que encontra apoio para viver o atual hiperfoco na literatura, assim como sempre procurou apoiar os sonhos e necessidades de seus filhos.

Ana Maria se define de uma maneira especialmente bonita: alguém que “endurece sem perder a ternura”.

Uma mulher que entende que cada pessoa precisa viver sua própria jornada, mas que também sabe acolher, pedir ajuda, oferecer apoio e caminhar junto.

Nunca é tarde para tentar

Talvez seja justamente essa maturidade que torne sua estreia literária tão especial. Ana Maria não romantiza o caminho. Sabe que existe muito trabalho pela frente, que conquistar leitores é difícil e que ainda há muito a aprender. Mas também descobriu algo precioso: o direito de tentar. A literatura, para ela, tornou-se uma forma de empoderamento. Uma prova de que ainda existem possibilidades, mesmo quando algumas portas parecem ter passado do tempo de serem abertas. “Eu também posso fazer, é possível”, afirma.

E é essa mensagem que ela deseja compartilhar com os leitores: acreditar nos próprios sonhos e, principalmente, não carregar culpa por tentar. Para quem deseja escrever, o conselho é direto: escreva. Porque escrever, segundo Ana Maria, liberta. Ajuda a construir pensamentos, formular conceitos e descobrir sentimentos e ideias que talvez nem soubéssemos que poderiam existir. Hoje, as possibilidades de publicação também são mais democráticas. Pequenas editoras, plataformas digitais, impressão sob demanda, coletivos e diferentes formas de divulgação abriram caminhos para novos autores.

E ela faz um alerta que é também um convite: não espere 40 anos como ela esperou.

Não espere amanhã. Porque a vida é finita, os sonhos não precisam ficar eternamente guardados e, enquanto houver tempo, sempre haverá a possibilidade de começar. Ana Maria está fazendo isso agora.

Depois de décadas escrevendo para jornais, revistas, instituições e para tantos outros, ela finalmente escreve também para si. E talvez seja essa a maior beleza de sua história: descobrir que algumas páginas da vida podem até ter sido escritas tarde, mas ainda assim podem ser as páginas mais bonitas de todas.

 

Ana Maria Barbosa não está apenas lançando um livro. Está inaugurando uma nova fase de sua própria história — com coragem, liberdade e a certeza de que nunca é tarde para transformar um sonho em realidade.

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