Basta uma volta pelo centro de Araçatuba (SP) ou em algumas regiões movimentadas da cidade, que é possível observar a presença de pessoas pedindo ajuda, entre elas, migrantes venezuelanos em situação de vulnerabilidade social. Alguns utilizam cartazes, escritos em um português improvisado, e ficam em semáforos, contando com a boa vontade dos munícipes.
Richard Franco, de 35 anos, é uma dessas pessoas; saiu do seu país há quatro anos, deixando filhos e mãe, e antes de vir para o Brasil, estava na Colômbia. Segundo ele, fez todo o trajeto caminhando, até chegar em Araçatuba e tentar se estabelecer no município. No dia da entrevista, ele estava hospedado na casa de uma pessoa, mas não sabia até quando poderia ficar no local.
O jovem contou para a reportagem do
Hojemais Araçatuba
que seu maior objetivo, no momento, é obter registro de migração e a CRNM (Carteira de Registro Nacional Migratório).
“Estamos focados em tirar nossos documentos, já que temos família na Venezuela e queremos ajudar e trazer pra cá, porque se tivermos os documentos, podemos alugar uma casa, ter lugar para trazer nossa família da Venezuela. De coração, queremos tirar esses documentos e então começaremos um trabalho que ajude a todos”, afirma Franco. De acordo com ele, é formado em engenharia agrônoma e trabalho social, além de ter feito cinco semestres de engenharia industrial e alguns cursos em outras áreas.
Imigrantes utilizam semáforo para pedir ajuda (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)
Necessidades
Segundo o imigrante, a família está passando por grandes dificuldades na Venezuela e muitas vezes não tem o que comer. Por dia, Franco diz que seus familiares precisam de pelo menos de R$ 15 a R$ 20 para ter ao menos uma refeição.
“Todos conhecem as necessidades que existem em nosso país. Em muitos momentos, precisamos sair pedindo nas ruas; não é sempre que pedimos nas ruas, mas tem momentos difíceis que precisamos buscar o pão de cada dia, não para nós, mas para toda nossa família".
Ele ainda conta que, caso consiga ajuda, pretende ficar na cidade. Porém, se precisar, parte para outro local, até conseguir seu objetivo.
Família
Uma jovem de 30 anos, que não quis se identificar, está em Araçatuba desde o final de julho. Chegou ao Brasil em dezembro do ano passado, com seus três filhos, de 12, 9 e 2 anos. Ela está na mesma situação de Franco, buscando uma maneira de regularizar os documentos para ficar no Brasil.
“Graças a Deus, muitas pessoas nos ajudaram com roupas e comida e nos ajudaram muito para poder dormir sob um teto. Mas ainda estamos esperando para regularizar os documentos.
A venezuelana chegou a procurar a Polícia Federal, que a orientou a acessar uma página na internet e preencher um formulário, pagando uma taxa de R$ 376 e agendar um atendimento, segundo ela.
Para conseguir esse dinheiro, a imigrante costuma ir às ruas pedir ajuda. Após regularizar seus documentos, quer ter um emprego. Segundo a jovem, cursou três semestres de educação comercial.
Venezuelanos são atendidos em Cras
O
Hojemais Araçatuba
entrou em contato com a Prefeitura, que afirmou que tem prestado atendimento aos venezuelanos em situação de vulnerabilidade.
Segundo a Secretaria de Assistência Social, até agosto, Araçatuba contava com pelo menos 37 imigrantes venezuelanos, que compõem nove núcleos familiares em situação de vulnerabilidade, sendo 21 adultos, sete adolescentes, oito crianças e um idoso.
Essas famílias são acompanhadas dentro do serviço Paif (Proteção e Atendimento Integral à Família), que orienta sobre seus direitos no Brasil, faz encaminhamentos necessários relacionados à saúde e também à documentação, e concede benefício, como cesta básica e hortifrútis, informou a pasta.
Esse atendimento tem sido feito nos Cras (Centros de Referências da Assistência Social) dos bairros Jussara, Etemp e Umuarama. Das nove famílias, três que são atendidas no Cras do Jussara dividem um imóvel, cujo aluguel é social.
No Centro Pop, a Prefeitura informa que neste ano um venezuelano foi atendido e a ele foi concedida uma passagem para Belo Horizonte (MG). Em 2020, sete venezuelanos também passaram pelo local e obtiveram passagens para Curitiba (PR).
As passagens são disponibilizadas de acordo o caixa e depende do destino desejado e do local mais adequado para receber o passageiro e dar continuidade à sua jornada.
Tipos
De acordo com a secretaria, existem dois tipos principais de imigrantes da Venezuela presentes em Araçatuba. O primeiro grupo é composto por pessoas que utilizam a cidade como rota para retornar para Venezuela ou para outro local do Brasil. “Esse grupo muitas vezes fica menos de uma semana na cidade, é composto por famílias e utilizam o semáforo e demais espaços públicos como locais para pedir dinheiro aos munícipes. Alguns deles se recusam passar por atendimento na Assistência Social e preferem adquirir o dinheiro por conta própria”.
O outro grupo é formado por indivíduos ou famílias que escolheram Araçatuba como local de residência por inúmeros motivos. “Mesmo já residindo em alguma casa, algumas pessoas nessa situação utilizam dos semáforos e demais espaços públicos para pedir dinheiro como estratégia de sobrevivência e alguns casos estão acompanhados por crianças, de modo que, o Serviço de Abordagem Social realiza intervenções no sentido de verificar se tais famílias estão inseridas nas políticas públicas do município (saúde, educação, assistência social entre outras) e orientam para que se evite a exposição de crianças no espaço público, evitando assim maiores riscos para elas”.