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Em foco: José Macário Perez Pria

Pecuarista mexicano conta sobre sua paixão pelos cavalos e vinda para o Brasil

Hugo Rocha - Hojemais Araçatuba
06/07/19 às 06h00

Aos 78 anos, o mexicano Macário Perez dá um show de vitalidade. Após eclodir as conversas sobre a reforma agrária no México, ele e sua família tinham duas opções: Brasil e Austrália. Saiu vencedor o país com dimensões continentais, que atraiu os mexicanos pela abundância em chuvas, rios e lagos. 

É pai de cinco filhos com a também mexicana Rosário Martinez Perez. Macário é apaixonado pelo cavalo quarto de milha. Tamanho envolvimento fez com que, nos idos de 1969, aos 28 anos de idade, junto a mais dez criadores da raça, fundar a ABQM (Associação Brasileira de Quarto de Milha). 

A chegada das provas nacionais da associação em Araçatuba foi um sonho de Macário que se tornou realidade. Com o entusiasmo constante que o persegue, ele fez questão de conversar com a coluna Hojemais VIP nas novas arenas que a ABQM constrói no recinto Clibas de Almeida Prado.

Macário desembarcou no Brasil pela primeira vez no dia da renúncia do presidente Jânio Quadros (Foto: HR)

Vinda ao Brasil: Eu vim para o Brasil por causa da reforma agrária mexicana, em 1962. Vim conhecer o país e se nós não gostássemos iríamos para a Austrália. Mas nós ficamos apaixonados pelo Brasil. 

Opção pelo país: Primeiro pelo tamanho. Nós somos pecuaristas no México e para pecuária você precisa ter área. Nunca El Salvador vai ser uma potência agropecuária. Isso que mais agradava. 

Segundo é que, havendo uma parte semidesértica do México, nós chegamos aqui e vimos essa abundância de chuva, de córregos, de rios, e isso é fascinante para qualquer um que vem de uma parte seca. 

Saudades: Tem meus irmãos lá. Eu sou o mais velho de 12, todos vivos. Então, eu tenho saudade de me encontrar com meus irmãos, minhas irmãs, sobrinhos, mas, assim, saudade “tô morrendo”, não. 

Diferença: A diferença é que o povo mexicano é mais agressivo. Tem certas coisas no México que você não pode brincar e aqui o povo brasileiro é apto a brincadeiras. Fica brincando com tudo que é coisa séria. E o povo mexicano, por exemplo, em questões familiares, se você mexer com a família de alguém você vai morrer. Ele gosta de respeitar e ser respeitado dentro da sua intimidade. 

Chegada ao Brasil: Eu cheguei no Brasil para conhecer o país e está marcado na história. Cheguei no dia que o sr. Jânio Quadros renunciou. Um primo meu e eu estávamos com uma carta de apresentação para um pecuarista muito grande, chamado Lincoln de Andrade Junqueira, e ele estava viajando. Então um primo dele, que era corretor, nos levou para conhecer o país. 

Fomos em Goiânia, Cuiabá, Barra do Garça, Xingu, Ilha do Banana, porque um veterinário que tinha trabalhado no King Ranch aqui, ele estava trabalhando num frigorífico que o dono era amigo do meu pai e eu tive contato, e ele mostrou que tinha umas terras na Barra do Garça, aí fomos conhecer aquela região. 

Nós voltamos após 40 dias para o México. Depois meu pai e meu primo voltaram em novembro e compraram uma área na cabeceira do rio 7 de setembro, 400 km ao norte de Barra do Garça, em 1962. E eu fiquei para terminar meu último ano de universidade;  me formei em 1963 em zootecnia na universidade New Mexico State University. Aí eu vim para cá definitivamente em maio de 1963, mas para mexer com gado, não para mexer com cavalo. 

Araçatuba: Eu fiz base em Goiânia, onde morei por 3 anos. Aí depois esse senhor, Lincon de Andrade Junqueira, que eu vim conhecer depois, virou quase que um segundo pai para mim. Ele me falou para comprar terras aqui no Estado de São Paulo. Lá era longe e não valia nada. Comprei uma área perto de Presidente Epitácio. Como eu não conhecia terra aqui no Brasil, ele foi me explicando. Depois eu troquei uma fazenda no norte por uma fazenda na encosta do Tietê, em Barbosa, e vim morar aqui. 

Quando me casei, eu podia morar ou em Prudente ou em Araçatuba. A minha mulher que optou por Araçatuba, porque tinha muita amizade com famílias daqui. Na fazenda, quando meus dois filhos estavam mais grandinhos, eu mudei para Araçatuba em 1969. 

Paixão por Araçatuba: Eu sempre gostei de Araçatuba, gosto muito do povo daqui. Com o meu passado de pecuarista eu também sou conservador. Não gosto muito de bagunça. E aqui sempre foi uma cidade ordeira. Naquele tempo não tinha problema. E tempos depois nós tivemos a felicidade de ter um governo federal que mandava e que tinha ordem e progresso. E não tinham essas idiotices criadas por PT, PCdoB e outros. 

Eu estou muito otimista que vamos voltar, devagarzinho, a ter ordem. Falta ao nosso presidente, não estou gostando do jeito que ele está indo, eu acho que ele podia ser mais radical com o Senado e Câmara dos Deputados. Mas eu não sou político. 

Quarto de Milha: Meu pai, na fazenda do México, tinha quarto de milha pela proximidade com os Estados Unidos. O estado onde temos as fazendas lá é divisa com o Texas e Novo México, o estado de Chihuahua. Então eu vou na fazenda desde que nasci. Meu primeiro tombo foi com 3 anos e meio. De lá pra cá eu cai umas 500 vezes (risos). 

Benefícios: Inteligência, mansidão, o jeito de ser e a diversidade de fazer diversas coisas. Por exemplo, o mangalarga é ótimo pra andar. Se você tem uma fazenda de café eu aconselharia você a comprar mangalarga e correr a fazenda de café. O árabe é de resistência, então se você vai andar no deserto 40 km por dia correndo, você compra árabe. E o quarto de milha tem a mobilidade, a inteligência e a mansidão. 

Pode ser facilmente treinado para diversas coisas. Haja vista que aqui vamos ter 19 modalidades de competições. Isso é o que mais agrada a gente: a versatilidade. 

ABQM: Aqui ainda não tinha cavalo quarto de milha (quando cheguei). Os únicos que tinham era do King Ranch e o resto era uma tropa muito ruim. Em 1968, no primeiro leilão do King Ranch eu comprei um garanhão puro, que foi o primeiro, que chamava Barravento Brasil. 

A partir daí começou a ter mais gente interessada, mais gente importar e, em 1969, fui um dos fundadores da ABQM, junto com mais nove ou dez. Eu era o de menos expressão. Era tudo gente muito mais importante do que eu. Porque eu era um moleque perante eles. Eles tinham mais de 50 anos e eu tinha 29 anos. 

A partir daí, eu comprei a tropa do sr. Garon Maia, porque ele decidiu vender após um evento familiar. Ele propôs e eu comprei. Eu trouxe um treinador americano para ensinar e o negócio foi evoluindo e eu competindo em tudo. 

Em 1986, chegou uma turma aqui em casa e queria que eu fosse candidato à presidência da ABQM e topei, porque (as competições) estavam só em São Paulo. 

Em 1987 eu ganhei a eleição e fiquei presidente no período 1988/1989. Depois disso meu pai ficou muito doente, eu fiquei afastado porque ficava indo e voltando do México para ver meu pai. 

Mas continuei criando e participando. Agora, ultimamente, em Avaré, que é uma coisa muito boa, mas não suporta mais campeonatos nacionais. Não tem mais espaço para isso. 

Fiquei pensando e há três anos eu venho pensando nisso. Fiz um projeto, eu mesmo, um pouco diferente deste que você vê aqui, mas fiz filmagem, fizemos projeto no computador e apresentei no conselho, já que sou membro no conselho de por vida por ser ex-presidente. 

Em 2015 a diretoria achou por bem que eu merecia uma homenagem e me indicou para o hall da fama, que fica eternizado dentro da ABQM. Fiquei muito grato e lisonjeado. E em 2016 eu apresentei esse projeto e estamos lutando, já que havia resistência de diversos grupos. Eu olho para o bem da associação. Não estou preocupado com ninguém a não ser com a nossa associação. 

O único parque que tem esteio e comporta a ABQM pelos próximos 25 anos é aqui. Os criadores de quarto de milha estão todos ao redor de Araçatuba, em São Paulo, norte do Paraná, sul do Mato Grosso, Goiás e Minas. 

Graças a Deus com a ajuda do Chifrinho, do Jamil Buchala, do Chico Afonso, conseguimos aprovar esse projeto dentro da ABQM, onde o Siran se comprometia em fazer uma pista e a AQBM faria outras duas. E entre uma e outra fariam o que precisa ser feito.

Sonho realizado: Eu estou extremamente feliz, contente, eu não tenho nem palavras para expressar minha satisfação, porque eu acho que a gente tem que deixar um legado para as novas gerações. Principalmente para meus netos e filhos dizerem “meu avô fez alguma coisa”. Eu sou de fazer. Não sou de ficar planejando. Planejar é uma coisa. Se ficar com muito lenga-lenga, eu passo por cima e vou fazer eu mesmo. 

Legado: Eu acredito que sim. Não sei. Principalmente para a AQBM e para Araçatuba. Principalmente para a cidade, onde sempre foi difícil fazer coisas. Muito conservadora. Mas agora está mudando com a vinda de universidades. Antigamente aqui se você propunha algo que não fosse gado você era considerado imbecil. 

Política: Nunca tive vontade. Se eu me candidatasse e ganhasse eles iam me matar em pouco tempo. Você pode ter certeza. Eu não sei falar mentira e nem rodear. Se eu não gostar de você eu olho nos seus olhos e digo. Não tem essa de mandar recado. E político não é assim. E tem mais, se o cara me fizer uma coisa ruim, é para o resto da vida e não converso com ele. Os políticos xingam um ao outro e logo depois estão almoçando junto. 

Mensagem aos mais jovens: Eles agora vão ter uma casa onde vão poder competir com dignidade, com tranquilidade, segurança pelo próximos 20/25 anos. Eles têm que sempre pensar na associação, pensar em trazer novos elementos e fazer com que os jovens tomem conhecimento de como se toca uma associação pelo bem geral. 

A ABQM tem hoje 120 mil criadores. São 37 mil associados. Não é meia dúzia. Vai do Oiapoque ao Xuí. Tem que pensar continentalmente. E uma coisa muito importante, no meu humilde entender, é fazer parcerias com nossos vizinhos para eles virem competir junto com a gente. Argentinos, paraguaios, uruguaios, chilenos, colombianos, todos eles, fazendo eventos internacionais. 

Conselho de vida: Do meu pai e de uma professora. Meu pai era extremamente sério, conservador. Ele falou que a inteligência do homem é conhecer seus próprios limites. 

E uma professora minha, quando eu tinha 8 anos, isso me marcou profundamente. Teve um teste e todo mundo tomou bomba e nós falávamos que o teste tinha sido muito difícil. Ela escutou, reuniu nós todos e disse “não se esqueçam que desde que se inventaram as desculpas, acabaram os idiotas”. Isso me marcou profundamente. 

Eu não dou desculpa de nada, assumo tudo. Se é burrice, eu confesso que errei, peço desculpas, mas não jogo a culpa em ninguém. É o que falta na nossa sociedade. Todo mundo quer direitos, mas não quer responsabilidades.

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