Opinião

‘365 DNI’: romance ou abuso?

O erótico filme polonês, recém-chegado na Netflix, está em 1º lugar no top 10 da plataforma, neste sábado (13)

Manu Zambon* - Hojemais Araçatuba
13/06/20 às 15h05
O ator Michele Morrone interpreta o mafioso Massimo Torricelli em "365 DNI" (Foto: Netflix/Reprodução)

Já começo esse artigo te fazendo uma pergunta: qual foi o pior filme que você assistiu nos últimos tempos? Consegue fazer uma escolha? O longa polonês “365 dni” é uma das piores produções que já vi na Netflix, se não, a pior.

E antes de iniciar, de fato, esse texto opinativo, dois lembretes: há spoilers e, se você é o tipo de pessoa que acredita que o mundo está chato, porque problematizam tudo, esse artigo não é para você. Aliás, esse artigo deveria ser para você.

Então, vamos lá. O filme erótico, dirigido por Barbara Bialowas e Tomasz Mandes, é uma adaptação de uma obra que leva o mesmo nome, da escritora Blanka Lipinska. Recém-chegado no catálogo da plataforma, no Brasil, está em 1º lugar no top 10 da Netflix, neste sábado (13).   

Por curiosidade, fui conferir o motivo do alvoroço e logo nas primeiras cenas, ele mostra a que veio. Estou falando sobre a cena de sexo oral, protagonizada pelo belo e poderoso (ou mafioso) personagem Massimo Torricelli (Michele Morrone) com uma comissária de bordo, em um avião. A cena é bem erótica e acontece numa cabine ao lado de pessoas que estavam a bordo.

O que chama a atenção nem é isso – quem já assistiu “Ninfomaníaca”, por exemplo, já está preparado para cenas mais marcantes que essa. O incômodo é gerado pelo ato ter sido a força. Imaginem: a mulher está trabalhando e é surpreendida por um homem, que a faz abaixar e a praticar o sexo.

Mas isso é só a ponta do iceberg. A personagem principal, Laura Biel (Anna Maria Sieklucka), tão bela quanto o seu “par”, é sequestrada por ele. Aqui, um adendo; antes do sequestro, ele a perseguiu por muito tempo, até conseguir praticar o rapto. Em seu poder, Laura sofre ameaças, intimidações, é abusada e, por fim, se entrega ao “romance” com o seu algoz.

Li alguns comentários relacionando o fato a uma romantização, ou normalização, da Síndrome de Estocolmo, que é um estado psicológico que faz com que a vítima tenha amor ou simpatia pelo seu agressor.

 

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E então, podem surgir perguntas como: mas isso é apenas uma história de ficção, não deveria ser problematizada. A ficção, ou melhor dizendo, a indústria do entretenimento, tem como função não apenas divertir, mas também lançar luz a assuntos bem sérios, como estupro, feminicídio, sequestro, suicídio. Filmes e séries podem chegar com mais facilidade às pessoas, do que campanhas, livros ou notícias.

A questão é como esses assuntos graves são abordados; se é de forma educativa, com a finalidade de construir ou debater uma consciência coletiva, ou se presta um desserviço.  

Há quem se incomode com esse tipo de “problematização”, dizendo que o mundo está cheio de “mimimi”. Convido a fazer desse mimimi uma grande reflexão. No Brasil, o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) divulgou que os atendimentos da Polícia Militar durante a pandemia, a mulheres vítimas de violência, aumentaram 44,9% no Estado de São Paulo.

O total de socorros prestados passou de 6.775 para 9.817, na comparação entre março de 2019 e março de 2020. Sem contar os índices de estupro de vulnerável. Levantamento realizado pelo Ministério da Saúde aponta que o Brasil teve mais de 30 mil casos de abuso sexual cometidos contra crianças e adolescentes em 2018. Os dados foram divulgados recentemente e é o maior desde 2011.

Mas o que tem a ver um filme polonês com os números brasileiros? Como jornalista e mulher, me vejo habilitada em dizer que a plataforma de streaming errou ao oferecer um filme com teor que fornece vários gatilhos, no seu catálogo, principalmente em uma época de índices altos de violência contra a mulher.

Sendo assim, minha conclusão é simples: “365 DNI” é uma versão mais tóxica de “50 Tons de Cinza”.  

*Manu Zambon é jornalista, atua no Hojemais Araçatuba cobrindo a área cultural de Araçatuba e região, e não é conservadora em se tratanto de filmes, séries e literatura

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