Em tempos os quais a tecnologia e a ciência avançam sem precedentes e as relações interpessoais são mediadas em grande parte por algoritmos, bytes e cliques, conceitos como ansiedade, depressão e esgotamento emocional se tornaram verbetes comuns e muito (mal) utilizados em praticamente todos os convívios sociais.
Pontuando a depressão enquanto patologia, discorrer sobre “as depressões” não soaria um exagero: “Ele está depressivo porque terminou o relacionamento”, “Ela pegou depressão depois que a mãe faleceu”, “Se matou porque estava com depressão” são apenas algumas das diversas constatações incorporadas ao senso comum de algo sério, complexo e que, de maneira alguma, deveria ser tratado com eufemismo, romantismo, quiçá, depreciação ou ridicularização.
Longe de abordar aqui aspecto teóricos, científicos ou profissionais relativos a essa condição denominada depressão, interessante perceber o quanto a contemporaneidade busca nomear e quantificar as suas experiências a partir de sentimentos/emoções para melhor compreendê-las (algo como o “Eu te amo mil milhões!” emocionalmente dito certa vez por certa garotinha ao seu pai).
Naturalmente, qualquer vivência nos reflete a algum aspecto emocional como medo, raiva, alegria, tristeza, entre outros. Todavia, estabelecer pifiamente uma mera causalidade aos acontecimentos através do viés emocional, ou seja, criar uma mera relação de causa (depressão) e efeito (se matou) entre esses, em nada se qualifica como avanço humano. Em contrário, tentar minimizar a complexidade humana reducionando-a a essas facetas soa como dar uma resposta automática às condições sociais que, como marionetes, nos movem através dos dias e horas sem muitas vezes tomarmos essa consciência. Em resumo: o iceberg não é só o que eu vejo...
Por assim e assim, substituir banalização por compreensão, apontamento por acolhimento e julgamento por entendimento, acalentam muito mais os dias de tristeza e melancolia que todos nós, com ou sem depressão, certamente passamos.
Olhar para o outro sem apontar o seu estado perceptível como a sua plenitude torna-se, de fato, uma grande barreira para a maturação do ser humano.