Opinião

A frágil crise humanitária no Haiti

"O Haiti está classificado em quinto lugar entre 96 países com probabilidade de ver o maior número de mortes causadas por desastres naturais, de acordo com um estudo do Banco Mundial e do Fundo Global para Redução e Recuperação de Desastres (GFDRR). Cinquenta e seis por cento do produto interno bruto do Haiti e 48% da população estão em risco cada vez que ocorre um desastre natural"

Renata Juliotti*
22/09/21 às 19h30
(Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Em questão de dias, um terremoto e uma tempestade tropical (Grace) atingiram uma das ilhas mais pobres do Caribe, contabilizando pelo menos 2.400 mortos e mais de 13 mil pessoas com ferimentos graves. Estima-se que mais de 130 mil casas foram danificadas ou destruídas e 600 mil haitianos foram afetados. No entanto, esses últimos desastres naturais são apenas parte de uma crise de longo prazo no Haiti.

É importante destacar que, nesse contexto de crise humanitária, os dados divulgados sobre os danos ainda não revelam a verdadeira face dos problemas do país. Neste ponto, é crucial abordar a necessidade dos grupos de apoio humanitário confiarem na experiência e conhecimento local e comprar produtos de fornecedores locais para apoiar a recuperação econômica.

Os recentes desastres marcam um período de transformação significativa para os haitianos, que recentemente viram a morte de seu presidente como o culminar de uma crise sociopolítica que vai desde a proliferação de gangues até alegações de envolvimento do governo em ações criminosas.

A instabilidade do país entendida do ponto de vista político, econômico e de segurança é vivida há muito tempo, principalmente com o seu empobrecimento nos últimos anos. A renda per capita do haitiano em face do impacto dos desastres recentes não é suficiente para se recuperar e o esforço humanitário ainda não pode chegar a todos os necessitados. Há relatos de muitos moradores em situação de extrema pobreza e fome que ainda não foram atendidos por redes de apoio, a grande maioria internacional.

Os desafios para a entrega de ajuda estão relacionados principalmente à violência de gangues, junto com a agitação política recorrente e bloqueios de estradas, que dificultam o acesso ao sul. Danos em estradas e pontes e chuvas fortes criaram desafios adicionais.

Diante desses fatos, qual é o grande desafio do Haiti neste momento? Em primeiro lugar, é necessário destacar a importância de um banco de dados atualizado, levantamentos e pesquisas que demonstrem a verdadeira realidade local. As ciências sociais e a pesquisa quantitativa e qualitativa da realidade nunca foram tão empíricas.

Em segundo, a ajuda humanitária internacional desempenha um papel fundamental neste contexto. Embora muitos países tenham trabalhado para fornecer o máximo de ajuda possível, nos últimos anos, muitas dessas instituições deixaram o Haiti em meio a várias crises e conflitos contínuos. A falta de suporte, recursos e especialistas torna impossível coletar dados precisos.

Prioridade

O Haiti está atualmente no meio da temporada de furacões no Atlântico. Como um dos países mais propensos a desastres do mundo, os obstáculos estruturais devem ser enfrentados antes que ocorra a próxima crise. Medidas como a aplicação de códigos de construção, bem como zoneamento e planejamento, que ajudam os países a absorver choques, podem fazer parte do plano do plano de redução de riscos e adaptação às mudanças climáticas.

Por exemplo, as recentes tragédias no Haiti ocorreram apenas um ano após a aprovação do Plano de Gestão de Riscos e Desastres, lançado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Governo da República do Haiti - o que levanta a questão: Qual a eficácia da implementação do plano?

O Haiti está classificado em quinto lugar entre 96 países com probabilidade de ver o maior número de mortes causadas por desastres naturais, de acordo com um estudo do Banco Mundial e do Fundo Global para Redução e Recuperação de Desastres (GFDRR). Cinquenta e seis por cento do produto interno bruto do Haiti e 48% da população estão em risco cada vez que ocorre um desastre natural.

Do ponto de vista humanitário, qualquer medida em um local de risco iminente constante deve fornecer planejamento estratégico sobre os grupos mais vulneráveis, o que para o Haiti significa as áreas com o acesso mais restrito para a entrega de ajuda e populações em situações de maior perigo, como pessoas com deficiência, idosos e crianças. Em outras palavras, é essencial desenvolver um programa humanitário e inclusivo para apoiar qualquer desastre futuro.

O atual frágil estado humanitário do Haiti atinge dois pontos correlatos: o desastre natural e o social. Nas medidas de emergência foi considerado o estado mental e psicológico das vítimas? As iniciativas de gerenciamento de risco devem ser centradas no ser humano, considerando os aspectos sociais, políticos e econômicos de um medidor pós-desastre.

Principalmente, os haitianos precisam de ajuda humanitária sustentável, um esforço de longo prazo que exige muito mais do que medidas de emergência, mas um programa contínuo de recuperação.

(Foto: Arquivo pessoal)

Jornalista, consultora, professora, consultora de Diversidade & Inclusão e mestranda em Comunicação Social com ênfase no Jornalismo Humanitário e Inclusivo. Pesquisa a inclusão profissional de pessoas com deficiência.

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