O que leva em plena era da informação líderes e agentes políticos a mentirem compulsivamente, não se importando com o tamanho da gazopa pronunciada e muito menos com as possíveis reações em contrário? Estariam os governados mais receptivos a mentiras ditas por seus governantes, afinal, uma baita aldrabice pode ajudar a grande massa a se conformar com suas crenças limitantes e suas ignorâncias lancinantes?
Mentir em política não é algo exatamente novo. A diferença é que justamente a era da informação e suas redes e veículos de comunicação fazem com que a mentira dita por um político alcance a opinião pública em poucos segundos, instantaneamente, em tempo real.
Na antiguidade clássica, os gregos inventaram duas palavras: Aleteia para significar “verdade” e Pseudeia significando “mentira”. Um dia, Aleteia foi indagada por um viajante que queria saber por que a “antiga senhora” vivia isolada na natureza e não na cidade. Ao que Aleteia respondeu prontamente: 'Entre as pessoas de idade, havia mentiras apenas entre alguns, mas agora elas se espalharam por toda a sociedade humana!”. Encontramos essa preciosidade da sabedoria grega em uma fábula atribuída à Esopo.
A modernidade, por sua vez, também é pródiga de mentiras propagadas por políticos e governantes, a ponto da filósofa alemã de origem judaica Hanna Arendt, ao tomar conhecimento de documentos secretos (e mentirosos) produzidos pelo governo norte-americano sobre a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, escreveu: a verdade "nunca esteve contabilizada entre as virtudes políticas”.
Da mesma forma, os regimes totalitários do século XX foram fecundos em matéria do uso da mentira como estratégia política. No stalinismo soviético, a mentira foi usada pelos dirigentes comunistas para o apagamento da memória histórica de fatos e personagens que não estavam em sintonia com a ideologia dominante, além de arma de repressão e censura, sendo transformada numa verdadeira máquina de propaganda de extermínio de opositores.
Na Alemanha nazista, para provar que a mentira não é privilégio nem da esquerda nem da direita, mas de ambos, a mentira como arma política e de poder foi amplamente utilizada para justificar o holocausto de judeus e a perseguição e extermínio dos que eram “eleitos” como inimigos.
Mais recentemente o fenômeno da mentira como estratégia política voltou com força total, inclusive, no seio de democracias consolidadas como os Estados Unidos. Nunca é demais lembrar que no início do século XXI o então presidente norte-americano George W. Busch justificou a guerra contra o Iraque sob a (falsa) justificativa de que Saddam Husseim detinha arsenal de destruição em massa. Também é de origem estadunidense o assombroso evento do trumpismo (alusão a Donald Trump), movimento anti-democrático que se alimenta, fundamentalmente, na mentira.
Mais importante do que lembrar a longa trajetória da mentira como estratégia dos regimes e dos líderes políticos é refletir sobre o imenso perigo que tal prática representa pois que quando se torna dominante nas relações entre Estado e Sociedade, provoca a emergência da barbárie, o sobrepujamento dos discursos e atos motivados pelos ódios, a naturalização da morte e da destruição. A mentira dos políticos, definitivamente, não libertará as massas, mas, ao contrário, a aprisionará à estupidez.
