Opinião

A quarentena forçada do baiano

Apesar de não ter estudado, "Seu Vavá" obedecia as ordens médicas

Hugo Rocha*
19/04/20 às 17h00

Antes de falecer, há um mês (19 de março), meu avô vivia em quarentena há mais de dois anos. Já não andava, vivia sob cuidados de enfermeiras e não tomava decisões do que iria fazer. Mal falava. Essa condição certamente lhe incomodava, mas nem isso ele conseguia expressar de maneira lúcida. Sabendo como fora durante toda a vida, imaginava o tormento que vivia. Ninguém suporta o cerceamento por muito tempo, muito menos o baiano "Seu Vavá". Apelidei sua condição de "quarentena involuntária".

Por outro lado, era responsável. Não desobedecia ordens médicas. Durante os anos em que respondia por sua saúde, meu avô respeitava os profissionais que o consultavam. Era amigo de todos. Se vivesse em tempos de quarentena com pleno vigor, respeitaria, mesmo que a contragosto. Detestava hospitais e medicamentos.

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Por mais de dez anos não comeu carne vermelha por ordens médicas. Na verdade, a orientação era consumir só uma vez por semana um bife ou algo do tipo. Ele foi além e baniu do cardápio os bovinos. Quando nasci, em 1994, já aos 70 anos, ele começou a flexibilizar a dieta e passou a consumir, aos poucos, um churrasquinho. No fim da vida, comia o que davam a ele. Nenhuma dieta controlada.

Outro exemplo familiar de "quarentena involuntária" é um primo que possui esclerose múltipla e que com o agravamento da doença, vive sob cuidados especiais. Está assim, infelizmente, há mais de onze anos.

Conheço outros exemplos de quem está em eterno isolamento. Pessoas que dariam tudo para perambular, realizar e sonhar, mas não podem. Não porque estão na quarentena temporária que a Covid-19 nos colocou, mas por estarem na "quarentena involuntária" da vida. Esses, quando nós voltarmos ao ritmo que nos é natural, seguirão enclausurados em seus isolamentos.

Seu Vavá partiu na semana em que o Estado implantou as medidas protetivas de isolamento e evitou ver a discussão entre "fica em casa" e "vai pra rua". Mesmo sem estudos e semianalfabeto, o baiano de Barra do Choça (BA), se tivesse que escolher, ficaria em casa. Pelo bem de todos.

Eu e Valter Rocha, o "Seu Vavá" (Foto: Arquivo pessoal)

*Hugo Rocha é jornalista, colunista social e apresentador de TV.

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