Opinião

A saudade das telonas

Mesmo isolados, seguimos consumindo a sétima arte, mas nada se compara a experiência de estar em uma sala de cinema

Marlon Ferri*
18/04/21 às 16h30

Dia desses me senti nostálgico – até mais do que de costume – sobre toda a experiência sensorial e emocional que assistir a um filme em uma sala de cinema causa.

Faz mais de um ano que não me acomodo na confortável cadeira para ter minha mente e meu peito invadidos pelas mais entusiasmadas e nebulosas ideias e sentimentos. E olha que eu tive o prazer e desgosto de assistir a um dos melhores filmes (1917) e a um dos piores (Dr. Dolittle) no último ano. É claro que cinema tem disso, se apaixonar e se frustrar.

Com o passar da idade, tenho obtido muito mais preferência por filmes mais bobinhos e leves, que não exercitem tanto minha massa cinzenta, para que este momento seja realmente um momento de descontração e até de desconstrução sobre o que eu mais amo em minha profissão: falar sobre o entretenimento de qualidade. Claro que uma virada de olho e uma cara de poucos amigos não fogem do meu semblante após a reprodução de uma péssima história, mas, ainda assim, tenho sido menos crítico até comigo mesmo.

E, justamente, por estar sendo menos crítico, tenho permitido sentir saudades de uma época que jamais retornará e aprecio minhas memórias como alguém que revê o mesmo filme inúmeras vezes e não se cansa. Memórias estas que não estão tão tardias, cerca de seis, cinco, dois anos atrás.

Era rotineiro, e quase como um ritual, o ato de ir ao cinema era semanalmente sagrado, não importasse o longa-metragem que estivesse em cartaz, o importante era viver tudo aquilo: as trocas de SMS (quando possuíamos iPhone e o WhatsApp nem tinha se expandido), a escolha da obra, o “se arrumar” (banho-colocar roupa de sair-se perfumar), ir de carro da sua casa até a casa da carona, colocar a sua, ou a dela, música do momento até o local e ter todo o interior do veículo invadido pelo confronto de aromas adocicados e expectativas sobre a história que será assistida.

E quando chegávamos ao shopping, sempre com antecedência da sessão, olhávamos vitrines com artigos que jamais compraríamos, mas que o capitalismo nos fazia desejar, e seguíamos até a bilheteria, sempre dando preferência para poltronas do meio da sala e nas pontas das fileiras, para que o contato com desconhecidos fosse mínimo, já que ali era o nosso momento em nosso sagrado templo. 

Dificilmente contribuíamos com a bomboniere, era mais prático e barato comprar as guloseimas em um supermercado que estava no centro de compras ou levar de casa em uma mochila. E essa sensação de carregar uma mochila fazia eu me sentir tão adolescente, mesmo já estando na maioridade e tendo concluído o ensino superior. Mas eu entendia muito bem esse sentimento: poucas vezes fui ao cinema durante a adolescência, não tive tantas companhias como gostaria e mesmo aquelas que tinham a idade mais alinhada comigo, logo começaram a ter relacionamentos afetivos mais sérios e eu nunca me propus ao cônjuge.

Deve ser por isso que a frequência de ter alguém para o cinema comigo tenha caído tanto, mas graças a um esforço interno, sempre me senti muito bem fazendo esse ritual sozinho; eu não deixaria de viver todas aquelas sensações, mesmo desejando que alguém estivesse lá. E era nesses momentos, onde estive só, que percebi que não era o cinema em si ou todo o ritual que fazia aquilo mágico, era a companhia, não o lugar. 

Me agarro a essa memória, sabendo que ela não vai voltar, como os oito filmes da série Harry Potter, que mesmo com o retorno do mundo mágico de J.K. Rowlling em Animais Fantásticos, não causará a mesma experiência que Daniel Radcliffe e cia trouxeram para todo uma geração. 

Em tempos onde tudo segue incerto e em inércia, sigo, de maneira saudável – e acompanhado por uma excelente especialista, relembrando as memórias como alguém que decorou todas as falas do filme favorito. Hoje, eu prefiro ver a reprise dos últimos anos do que encarar o ineditismo dessa triste realidade mundo a fora. 

(Arquivo pessoal)

*Marlon Ferri é jornalista em São José do Rio Preto (SP), músico, escritor, e apaixonado pela cultura pop/nerd desde a infância

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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