Opinião

A serenidade de viver bem sem exigir respostas do universo

"Viver bem exige certa coragem para aceitar o mistério e certa delicadeza para não exigir que a vida seja mais do que pode ser"

Reinaldo Aparecido Chelli
11/12/25 às 12h09

As conversas entre amigos, especialmente aquelas que surgem em torno de uma mesa depois de um café ou de um almoço, frequentemente esbarram nas velhas perguntas humanas: Deus existe? Há vida após a morte? Para onde tudo segue quando termina? Que sentido tem a existência? São questões tão antigas quanto a própria espécie e que permanecem sem resposta — e provavelmente permanecerão — porque não se resolvem pela ciência.

Há, no entanto, um modo de olhar para esse conjunto de inquietações que raramente aparece nas discussões públicas e que merece ser lembrado: a postura da indiferença tranquila . Não se trata de desdém ou apatia, mas da percepção lúcida de que tais perguntas pertencem a um território sobre o qual nenhum indivíduo exerce controle. Por isso mesmo, não deveriam comandar a vida cotidiana com ansiedade ou temor.

Mesmo quando o debate gira em torno da existência de Deus, nem sempre se admite uma ideia simples: a presença ou a ausência de uma divindade talvez altere muito pouco a maneira como cada pessoa vive. Se Deus existir, é possível que não interfira no curso natural dos acontecimentos; se não existir, a ordem do mundo seguirá operando como sempre. Em qualquer hipótese, o que cabe ao indivíduo permanece igual: viver com ética, cuidado e dignidade .

O mesmo raciocínio vale para a vida após a morte. Caso exista algum tipo de continuidade — outro plano, outra forma, outra experiência — é difícil imaginar que uma vida correta represente um risco. Caso nada exista, o fim será apenas retorno ao silêncio, à ausência de sensações, como um sono sem sonhos. Essa constatação simples tende a produzir certo alívio: inquietar-se com aquilo que escapa completamente ao alcance humano pouco modifica o desfecho.

A atenção, portanto, deve se voltar ao que está ao alcance: a vida concreta. Há rotinas, responsabilidades, alegrias discretas, dores inevitáveis, perdas que exigem elaboração, decisões que moldam trajetórias. É nesse terreno que as escolhas realmente importam e onde se encontra uma forma de sentido: nos vínculos, no cuidado com quem está próximo, na honestidade das pequenas atitudes, na busca possível de serenidade.

Nesse contexto, a ética deixa de ser obrigação pesada e funciona como bússola confiável. Em vez de depender de recompensas sobrenaturais ou de temer castigos divinos, oferece algo mais sólido: a tranquilidade de consciência proporcionada por uma conduta responsável dentro das limitações humanas. Não há transcendência nisso — e justamente por isso há beleza.

Talvez a maior sabedoria esteja em reconhecer que a maior parte das perguntas não encontrará resposta — e que isso não diminui o valor da existência. Viver bem exige certa coragem para aceitar o mistério e certa delicadeza para não exigir que a vida seja mais do que pode ser.

O resto — Deus, destino, outra vida — ocorrerá como estiver destinado. Ou simplesmente não ocorrerá. Surpreendentemente, essa constatação costuma ser suficiente para que a serenidade encontre espaço.

Aqueles que se dedicam, com esforço e honestidade, à arte de viver bem — tarefa simples apenas na aparência — percebem que a resposta, ou a ausência dela, pouco altera o essencial. O sentido da existência se estabelece no modo como cada pessoa conduz o breve intervalo que lhe cabe. Quando esse intervalo é marcado por responsabilidade, cuidado e ética, o que vier depois, caso venha algo, pode ser aguardado sem sobressalto.

A indiferença tranquila, repita-se, não significa descaso. É, antes, a liberdade de viver o presente com profundidade, sem exigir do universo respostas improváveis — e sem permitir que a falta delas roube a paz que ainda é possível construir.

Foto: Divulgação

Reinaldo Aparecido Chelli Procurador do Estado aposentado

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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