Jonathan Rauch, prestigiado jornalista americano e agudo ativista em prol da liberdade de expressão, no seu recente livro, The Constitution of Knowledge , defende que os desdobramentos da democracia e da ciência liberal incitam um determinado padrão de conhecimento.
É no mínimo intrigante e contraditório pensar numa democracia que fomente um modelo epistemológico. É nessa toada paradoxal que Rauch propõe, então, a construção de saberes, originais, criativos e construtores, a partir da diversidade, do desacordo e dos pontos de vista divergentes. O conhecimento que nasce apoiado em padrões apenas reproduz a realidade: não avança, não muda, não transforma. Na verdade, esse tipo de saber unicamente estagna, paralisa, tolhe.
Rompantes do absolutismo na França, liberdade, igualdade e fraternidade, foram valores basilares, entoados durante a Revolução Francesa, ocorrida entre 1789 e 1799, que constituem da democracia moderna. Preveem a criação de um Estado de Direito, no qual todos são, a priori, livres e iguais, independentemente da origem, do gênero, da etnia, da religião, da faixa etária ou da classe social.
A democracia é um exercício da liberdade com responsabilidade. Entende-se, assim, que o conhecimento realmente necessário para a evolução da humanidade não deveria ser um ativo ou uma commodity moderna padronizada. Portanto, a reflexão sobre a domesticação da produção de saberes por vieses ideológicos cânones é premente.
O conhecimento, para Aristóteles (384 – 322 a.C.), é resultante da relação entre a potência do intelecto humano com o mundo sensível. A partir dessa interação, o ser humano produz conhecimentos, pois elabora os dados oferecidos pela experiência com a realidade do mundo sensível e as faculdades mentais. Dessa premissa, o pensamento aristotélico concebe o ser humano como animal racional, pois afirma que “todo homem por natureza tende ao saber”.
Paralelamente, São Tomas de Aquino (1225 – 1274), frade católico italiano, entende que, como o ser humano tem autonomia e, portanto, está acima de outros animais, as capacidades intelectuais são centrais na constituição do conhecimento.
Immanuel Kant (1724 – 1804), reverenciado como o principal filósofo da era moderna, igualmente considera fulcral o intelecto na produção de conhecimentos, pois é uma capacidade ativa de reconhecer as representações do mundo. O mundo sensível, na visão kantiana, também é imprescindível nesse processo, porque é a contar das sensações que a representação do mundo é recebida. Assim, trata-se de uma capacidade receptiva. Dessa forma, tanto o mundo exterior como mundo interior do ser humano são indispensáveis na construção do conhecimento.
Portanto, a trajetória de vida de cada um de nós, que é ímpar, única, diversa e singular, é um dos elementos centrais para a produção de saberes libertadores.
Numa outra perspectiva, frente a essas linhas filosóficas acerca da origem do conhecimento, a capacidade de elaborar ideias poderia ser compreendida pelo viés de que a formulação de pensamentos é possível devido à interação com outros pensamentos. Logo, o outro é condição sine qua non para a eclosão de novos saberes, dos quais, de fato, precisamos. Dada a relação da inexorável capacidade humana nata de formular ideias (intelecto) com os pensamentos já existentes, construídos ao longo da trajetória da vida, no mundo sensível, a interação com diferentes concepções de vida galvaniza o conhecimento que floresce e transforma.
Consequentemente, a julgar que todos temos histórias de vida diferentes, é razoável afirmar que a produção de conhecimentos não poderia ser concebida a partir de um molde. Não produziríamos saberes, mas apenas meramente reeditaríamos o que já foi construído.
Não avançaríamos como seres humanos, mas tonificaríamos a estagnação da nossa espécie. Destarte, a indefectível diversidade humana é o que aduba o conhecimento de que precisamos para avançar como seres humanos, pois possibilita questionamentos, desenvolvimentos, aperfeiçoamentos e o livre pensar. Apreende-se, então, que a pluralidade das formas de pensar, ser e agir é a gênese do conhecimento do qual precisamos, ou seja, carecemos da sapiência revolucionária. Fomentar a construção de conhecimentos dessa natureza é um ato de resistência.
