Opinião

Após quase 75 anos, fãs guardarão para sempre lembranças da dupla “As Galvão”

"Mary e Marilene se notabilizaram por cantar a vida deste homem do campo e formaram um vasto repertório"

Guilherme Leal*
26/06/21 às 14h30
(Foto: Divulgação)

Depois de quase 75 anos de atividade, chega ao fim, mas não por vontade própria, uma das maiores e mais importantes duplas sertanejas do Brasil: “As Galvão. ”

O anúncio foi feito por Mary Galvão em entrevista a um canal no YouTube, no sábado (19). Sua irmã Marilene, parceira em um dos projetos mais vitoriosos e longevos da nossa cultura, enfrenta uma batalha contra a doença de Alzheimer, que a impede de continuar trabalhando.

Conhecidas inicialmente como “Irmãs Galvão”, “As Galvão” foram pioneiras em um mundo onde os homens sempre dominaram. A carreira começou em 1947. Mary, nascida em Ourinhos (SP), e Marilene, em Palmital (SP), iniciaram a vida artística com cinco e sete anos, respectivamente.

Elas passaram a adolescência trabalhando na música e tiveram contato com expoentes da cultura caipira genuína, como Zico & Zeca e Lio & Léo. Importante diferenciar a música defendida por “As Galvão” do sertanejo universitário difundido atualmente.

Tanto Mary Galvão como outros representantes importantes, como Inezita Barroso, defendiam e defendem que a música sertaneja caipira é aquela que canta o dia a dia do homem do campo, seus amores, frustrações, alegrias e dificuldades e em nada lembra as canções onomatopéicas que rendem milhões aos sertanejos modernos.

Mary e Marilene se notabilizaram por cantar a vida deste homem do campo e formaram um vasto repertório. Só de músicas gravadas são mais de 300. “Beijinho Doce” (originalmente gravada pelas “Irmãs Castro”, em quem se espelharam no começo da carreira), “No Calor dos Teus Abraços”, “Pedacinhos”, “Menino Canoeiro” e “Lembrança” são alguns de seus sucessos. “Pecado Loiro”e “Apenas um Pecado”, lançadas pelas Galvão, foram, mais tarde, regravadas por várias duplas.

Elas também emprestaram a voz para cantar sucessos de muitos autores de canções genuinamente caipiras como Raul Torres, Cascatinha e Inhana e Adauto Santos. Deste, gravaram “Triste Berrante”, que foi escolhida para compor o show gravado em DVD que comemorou os 70 anos de carreira das soberanas.

“Ali passava boi, passava boiada/ Tinha uma palmeira na beira da estrada/ Onde foi cravado muito coração.” É um dos trechos dessa música. Coração. Segundo Mary, esse é o órgão que mais tem sido usado por ela desde que a irmã foi diagnosticada com a doença degenerativa em 2018.

Os fãs da dupla sempre se acostumaram a ver as duas conectadas no palco, se olhando nos olhos enquanto cantavam como uma marca de um dos mais perfeitos duos do País. Essa cumplicidade pode ser notada em entrevistas concedidas a emissoras de TV pelas duas após o diagnóstico da doença em Marilene.

Também será no coração que uma legião de fãs e admiradores irá guardar a lembrança dessa dupla feminina que por diversas vezes esteve na região de Araçatuba. Das vozes que emocionavam e divertiam. Da dupla paulista que tocou e cantou a vida na roça por todas as regiões do Brasil. E das irmãs que estiveram juntas em todos os momentos como prova de um amor sem limite.

 

(Foto: Arquivo pessoal)

*Guilherme Leal é jornalista, assessor de imprensa e apreciador da história artística popular brasileira, desde a música sertaneja raiz até o “quem matou Odete Roitman?”. É criador do podcast Além do Fato

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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