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Segundo algumas correntes científicas e filosóficas, o cosmo está em constante evolução desde os primórdios. Assim, é possível entender que todos os seus integrantes fazem parte dessa ininterrupta e caudalosa mudança. As marés, por exemplo, alteram-se regularmente. As forças físicas e biológicas da natureza emolduram o tempo de germinação, concepção e crescimento das plantas e dos animais. Não permitir ou aceitar as inexoráveis transformações seria, talvez, ir contra a natureza da existência.
Contudo, sendo, a priori, racional, o ser humano é o único elemento do universo que pode contrariar as inerentes renovações do mundo. As sábias palavras de Heráclito (550 – 470 a.C.), filósofo pré-socrático da Ásia Menor, ou seja, “a única coisa que não muda é que tudo muda” corroboram o fato de que o mundo está num perpétuo fluxo. Logo, nada é estático, petrificado ou eterno. Tudo se move e muda. Indubitavelmente, com a tecnologia não é diferente, pois avança, propicia novos conhecimentos e, por conseguinte, desafia velhas instituições que, normalmente, eivam iconoclastas e estultas formas de pensar e agir.
Abrir-se para novos horizontes, então, é central, uma vez que os conceitos rígidos, como suscitado acima, não fazem parte, teoricamente, da condição humana, porque somos constituintes de um espaço mutante. Além disso, superar barreiras reducionistas e opressoras, cujas individualidades são silenciadas em detrimento de padrões normativos, opressores e dogmáticos, também compõem, em tese, o corolário da essência humana. Nessa toada, o racismo, a homofobia, a misoginia, o negacionismo, o controle, a colonização, dentre outras ideologias extremistas ou de viés totalitário, tão presentes nas narrativas contemporâneas, sobretudo nas redes sociais e nos discursos de alguns governos, se enquadram, portanto, em concepções fixas. Afeito a teorias de conspiração, pensamentos radicais e conservadores, indo contra ordem do Universo, são terrenos férteis para o retrocesso civilizatório.
O momento e o contexto são elementos catalisadores das idiossincrasias relacionadas às vicissitudes. Ao estudar como as categorias de tempo e espaço estavam representadas nos textos literários, M. M. Bakhtin (1895-1975), filósofo da linguagem, elaborou o conceito “cronotopo”. Pautado na origem grega do termo, ou seja, cronos, tempo e topos, lugar, o pensador russo enfatiza a indissociabilidade entre esses dois elementos na materialização das representações literárias e, certamente, nas outras formas de linguagem. A julgar que o mundo se orienta pela e nas linguagens, considerar o tempo e o lugar é fulcral para se entender, conceber e permitir as mudanças.
Acreditar e propagar, por exemplo, que as vacinas da COVID-19, desenvolvidas em apenas alguns meses, não foram suficientemente testadas, frente aos pelo menos 10 anos de outrora para se elaborar outros imunizantes, como a do Sarampo e da Hepatite B, é no mínimo ignorância e ingenuidade dos nefelibatas. A tecnologia da biologia molecular e química, para citar apenas alguns campos da ciência, avançou com a revolucionária força dos estudos em centros renomados de pesquisas, como o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (Estados Unidos), as Universidades de Oxford e Cambridge (Inglaterra) e, claro, não menos importante, os nossos prestigiados e seculares Instituto Butantan e FIOCRUZ (Brasil), dentre outros. Mais uma vez, o tempo e o espaço iluminam o caminho para a compreensão de como e porque as mudanças ocorrem.
É imprescindível se permitir aos novos e diferentes pensamentos que a oferta de ideias, estudos e novas possibilidades oportunizam, de modo que se expandam as visões para se assentir as mutações do mundo. Ao se ter contato com pensamentos diferentes, argumentos podem ser construídos e consolidados, bem como novas perspectivas podem ser prospectadas, considerando, sempre, que nada é e será perene. Aos arautos das convicções inamovíveis, comumente afeitos ao absolutismo e ao autoritarismo, como os negacionistas e o preconceituosos, além daqueles cujos juízos estão arraigados em bases anacrônicas e retrógradas, conviria flexibilizar suas mentes engessadas para não se tornarem reféns de profecias insidiosas, vetustas e apocalípticas.
Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão, nos ajuda a refletir acerca das inelutáveis alterações da vida com os seguintes dizeres: “toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço”.
