Opinião

Borboletas migrantes

"De acordo com Relatório Mundial sobre Migração 2022, feito pela Organização das Nações Unidas, somos 281 milhões de migrantes internacionais, o que equivale a 3,6 % do total da população"

Carolina Cerqueira Cruz*
26/01/22 às 20h00

“Quem quer deixar o lugar onde vive não é feliz”. Começo com frase que é pedaço de um diálogo de dois personagens da obra Insustentável Leveza do Se r, livro escrito por Milan Kundera. Tereza desejava outro lugar. Ela, o marido e cachorra foram embora para Suíça. Mas em sua cabeça sempre pateou o receio de que um dia alguém lhe dissesse que aquele território não era dela e que voltasse para o lugar de origem. 

Penso na sensação de quem faz as malas e vai: o de não mais pertencer a uma cidade que era considerada tua. Por outro lado, também há o medo de ter de lidar com o fato de que o lugar que vive também não lhe pertence por completo. Questões de identidade e identificação.  Então me pergunto qual o motivo que nos faz ir? Será o estar infeliz colocado na frase do escritor tcheco?

Hoje, faço parte da primeira agência migratória de Portugal. Sou uma das advogadas responsáveis pelo processo de autorização de residência dessas pessoas que transferem suas vidas para a terra de Camões. Gente do mundo todo, da Rússia aos Estados Unidos, chineses e ingleses. Culturas totalmente distintas. Os motivos para mudança também são diferentes: qualidade de vida, clima, estudo, investimentos, ambição ou trabalho. Todas relatam estarem felizes com a mudança.

De acordo com Relatório Mundial sobre Migração 2022, feito pela Organização das Nações Unidas, somos 281 milhões de migrantes internacionais, o que equivale a 3,6 % do total da população. Migração é o processo de entrada e saída, de uma pessoa ou um grupo de pessoas de um território, de forma temporária ou permanente. Movimento que existe desde os primórdios da humanidade e nos legou o mundo de hoje. Há contribuição para o desenvolvimento econômico e integração cultural. Alguns teóricos até chamam a nossa era de “Era das Migrações”.

A história conta a dança de indivíduos que andam entre países, cruzam os céus, atravessam oceanos e mudam de continente. Tivemos as navegações, colonização, sabemos dos europeus que foram ao Brasil trabalhar no café. Hoje, observamos estudantes de nacionalidades diversas a escreverem juntos. Há também, do outro lado, a imigração ilegal onde pessoas arriscam as próprias vidas e geram problemas aos Estados.

Pelas ruas temos os refugiados que buscam sobrevivência; foi obrigatório fugir. Há uma diferença entre migrante e refugiado. Temos os que querem ir, chegam cheios de planos e aqueles que circunstâncias, tais como guerras e perseguições, obrigaram a saída. Condição que é definida na Convenção Relativa aos Refugiados das Nações Unidas de 1951.

No outro hemisfério, dados mostram que o Brasil, por sua vez, tem sido modelo na concessão de vistos humanitários para os migrantes e refugiados. A nova lei da migração brasileira reconhece todos como sujeitos de direitos, trata inclusive dos apátridas.

Araçatuba, sempre soube que um dia abriria as asas. Não sei se a deixei pelo sonho do voo, por pretensão intelectual, busca por novas experiências ou se foi puro desejo por liberdade e movimento.  Outra vez na cabeça a frase do Kundera.

Na hora de vir, pensei que fosse me desfazer no aeroporto. Chorei e ainda choro de saudade de algumas pessoas que vivem aí, como a minha família. Sou um número na estatística migratória porque assim o quis. Por agora, gosto de estar nesse país que um dia foi nossa metrópole. Estado que tem me feito crescer pessoal e profissionalmente, mas vim daí, sou daí. Uma borboleta migrante. Fixa, mas que se movimenta nesse mundo.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Carolina Cerqueira Cruz é historiadora, advogada inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil e na Ordem dos Advogados Portugueses. Mestranda em direito internacional e relações internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Um coração que dança no mundo .

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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