Tristeza e decepção. Tristeza por milhares de mortes que se acumulam neste momento em que se completa um ano em que foi decretada a quarentena no Estado de São Paulo pela primeira vez, em razão da pandemia do coronavírus. Foi em 22 de março de 2020 que entrou em vigor o decreto com início das restrições, suspendendo atividades do comércio e autorizando o funcionamento apenas dos serviços essenciais. A previsão inicial era de que essas medidas se estenderiam até 7 de abril, mas entre idas e vindas, aquela quarentena está vigor até hoje, prorrogadas diversas vezes.
A decepção é porque passado exatamente um ano, vivemos uma situação ainda pior do que naquele momento, quando pouco ou quase nada se sabia do inimigo, o coronavírus. O pior é que depois de tanto tempo, todos sabem o que tem que ser feito, mas muitos ignoram.
O coronavírus existe?
Já ficou comprovado que sim.
Ele causa uma doença grave que pode levar à morte ou deixar sequelas, além de longo período de internação em muitos casos?
Sim.
Como se dá a transmissão do coronavírus?
Por meio das secreções respiratórias dispersas no ar pela tosse, espirro ou fala; ou no contato com dessas secreções com áreas de mucosas, como os olhos, o nariz e a boca.
Como prevenir?
Evitando o contato físico, higienizando as mãos e utilizando máscara facial.
Se é só isso, por que vivemos essa situação dramática em todo País e também na nossa cidade? Isso mesmo, somente em 22 dias do mês de março, 101 pessoas que foram infectadas pelo coronavírus perderam a vida em Araçatuba. Na região, que corresponde a 40 municípios, são 228 óbitos em 22 dias. Nos últimos sete dias foram 113 mortes. São mais de 16 pessoas morrendo na região por dia na última semana em média.
As mortes acontecem em todas as cidades, das maiores às menores. Nesta segunda-feira foi a vez de Penápolis, terceira cidade mais populosa dentre os 40 municípios a ultrapassar a triste marca de 100 vítimas. Andradina, que é a quarta mais populosa, já havia ultrapassado essa marca havia meses.
E o número de mortes não vai parar de crescer tão cedo. Os hospitais estão lotados, tanto nas UTIs como nas enfermarias. A região de Araçatuba lidera o ranking de ocupação de leitos de UTI covid entre as 17 regionais do Estado, com 97,3% de ocupação. O percentual é semelhante ao de Presidente Prudente e superior à média estadual, que é de 91,9%.
Há três semanas, quando foi definido que todas as regiões seriam rebaixadas para a Fase Vermelha, apenas a região de Araçatuba e outras três no Estado estavam na Fase Amarela, o que confirma como a situação piorou rapidamente. Caso a Fase Emergencial acabasse hoje, em todo o Estado de São Paulo somente os serviços essenciais poderiam funcionar. E não se sabe até quando se estenderá essa situação.
Diante de um cenário trágico como esse, há quem cobre da administração municipal em Araçatuba, a adoção de medidas ainda mais duras, como já ocorreu em cidades como Araraquara, Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, onde a Prefeitura restringiu ainda mais os serviços e decretou o lockdown.
Mas é preciso que o poder tome providências para que as pessoas façam o que têm que ser feito, se cada um sabe o que tem que fazer? De que adianta adotar medidas drásticas se elas não serão cumpridas, mesmo após um ano de sofrimento com as consequências da pandemia?
O fato é que para muitos, essa ideia de que não se deve seguir as restrições seria uma forma de ferir a liberdade das pessoas. Porém, governadores e prefeitos só são obrigados a tomar medidas drásticas porque as pessoas não cumprem seu papel, que é usar máscara e evitar o contato físico com as outras.
Se esse bloqueio contra o vírus fosse incentivado, certamente a situação seria outra. Ao invés disso, o que se criou foi uma guerra interna, com a qual o único que saiu fortalecido foi o verdadeiro inimigo, que é o vírus. Com o passar do tempo ele sofreu mutações, está cada vez mais forte e continuamos discutindo de quem é a culpa, enquanto a culpa é de todos nós.
A liberdade é um direito de todos, mas é uma construção racional, da consciência do bem comum. Sendo assim, ninguém pode achar que é livre para não usar máscara e colocar em risco o outro ou fazer aglomerações. Por conta dessa visão equivocada é que o poder público precisa adotar restrições, que acabam gerando ainda mais conflito.
Porém, esse conflito também não tem sentido, pois a função do Estado é justamente a de proteger o cidadão, muitas vezes de si mesmo. Por isso, são legítimas as iniciativas tomadas por prefeitos, governadores e presidente, já que em uma democracia todos são eleitos da mesma forma, com votos que lhes dão o mesmo poder.
Portanto, nenhum dos ocupantes das três esferas do Poder Executivo, seja ela municipal, estadual ou federal, tem o direito de achar que tem mais poder do que o outro, pois o poder é do povo que o elegeu. E queira os eleitores sejam contrários ou não às medidas que forem adotadas, elas devem ser respeitadas, ou não haverá democracia.
O que se espera de tudo isso é que as pessoas tomem consciência, diante de tanta tragédia, de que tudo começa por elas. São as atitudes de cada um que farão a diferença no final, seja para o bem ou para o mal de todos.
