Opinião

Carta aberta de um familiar de um doente grave de covid-19 à população

"Deste momento em diante, não importa a escolaridade, a raça, o gênero, a família, é pura dor. É a pior das dores, porque não se pode sentir, é preciso seguir a rotina diária. Não se pode esmorecer, é preciso encontrar forças"

Heloísa Helena Silva Pancotti*
26/03/21 às 20h00

Assim que se tem notícia que aquela pessoa que você tanto ama vai pra UTI, você é chamado no hospital para retirar os pertences do paciente. Recebe roupas, celular, objetos que tenham sido levados para a internação e o mais dolorido para quem é casado, a aliança de casamento, ou qualquer outro ornamento que o paciente esteja usando no momento da internação 

Isso é muito simbólico, porque fica clara a ruptura e nos aproxima da pior das hipóteses, aquela que você ouviu no momento do casamento, “Até que a morte os separe”. A partir daí, aquela pessoa que era do seu convívio diário, que estava sempre junto de você, desaparece, e a sua rotina passa a ser acordar - quando se consegue dormir – já ansioso para receber o boletim médico diário, que pode chegar a qualquer hora trazendo boas ou más notícias.

Deste momento em diante, não importa a escolaridade, a raça, o gênero, a família, é pura dor. É a pior das dores, porque não se pode sentir, é preciso seguir a rotina diária. Não se pode esmorecer, é preciso encontrar forças. 

Muitas pessoas demonstram solidariedade e aparecem anjos de todos os tipos e de todos os lugares oferecendo empatia, consolo, oração, ombro amigo.  

Porém, você passa a enxergar tudo por um prisma muito diferente, ainda mais porque as redes sociais se tornam um espaço para os familiares tentarem alienar-se e distrair-se da dura realidade da espera infinita por notícias.

Porém, também vemos um doloroso desrespeito para com o luto. Sim, isso mesmo. As pessoas insistem em sair às ruas sem máscara, sendo veículo de disseminação do vírus; não se importam com a vida daqueles com quem cruzam em locais públicos, dos profissionais de saúde que estão se desdobrando, dobrando plantões, saindo de seus turnos aos prantos de tanto sofrer o sofrimento dos pacientes e familiares e ainda correndo o risco de contaminar a própria família.

O que mais machuca é ouvir aquele argumento: covid-19 não transmite no ônibus, não é? Ainda mais quando você sabe que aqueles que estão nos ônibus são os trabalhadores essenciais, aqueles que estão arriscando a vida para cuidar do seu familiar doente, dos detritos, são trabalhadores que também estão vivenciando o luto.

A dor das longas horas dos longos dias de espera e das incertezas é aumentada muitas vezes por aqueles cegos e ególatras incapazes de reconhecer a dor do outro, daquele que acredita que a sua própria liberdade e vontade são maiores que a vida daqueles doentes e dos trabalhadores da linha de frente.

Não vivemos mais, sobrevivemos. Sobreviver dói, demanda uma imensa energia, desgasta a alma, o corpo, o pensamento. Não basta orar pela dor alheia, é preciso sentir empatia, solidarizar com a dor alheia, corrigir as atitudes. A doença neste momento atingiu a todas as famílias, não há razão nem espaço para o ego, estamos numa luta por sobrevivência.

Antes de sair às ruas sem máscara, de comparecer naquela festinha bem pequena (ou não), de dizer e postar aquilo que seu ego imenso pede, lembre-se que existe um amigo, um parente próximo, neste mesmo momento, olhando pra uma aliança de casamento que está inerte aguardando o seu dono; que tem uma pessoa aflita de olhos grudados à tela de um celular aguardando uma notícia e, sobretudo, que muitos estão chorando e enterrando os amores de suas vidas.

O seu direito de andar sem máscara não é, e nem nunca será, maior que a dor desses familiares e a vida dos que estão perdendo a luta pela sobrevivência.

*Heloísa Helena Silva Pancotti é advogada, consultora jurídica, professora universitária e autora da obra “Previdência Social e transgêneros”.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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